Estudo

Você sabe diagnosticar a filariose linfática?

A filariose linfática, também conhecida como elefantíase, bacroftose ou filaríase de Bancrofti, é uma das principais causas mundiais de incapacidade permanente ou de longo prazo. É uma doença parasitária crônica causada pelo Wuchereria bancrofti, transmitido pela picada do mosquito fêmea da espécie Culex quiquefasciatus. No Brasil, o principal foco ativo encontra-se no estado de Pernambuco, especificamente na região metropolitana do Recife.

Como o Wucheria bancrofti infecta o homem?

Ao adentrarem a corrente sanguínea do hospedeiro, as microfilárias (formas imaturas do W. bancrofti) permanecem em capilares profundos (como nos pulmões) durante o dia e, à noite, migram para os capilares periféricos.

Ciclo de vida do Wuchereria bancrofti. Fonte: https://www.tuasaude.com/wuchereria-bancrofti/
Ciclo de vida do Wuchereria bancrofti. Fonte: Tua Saúde

Já quando o parasita se torna um verme adulto, migra principalmente para o sistema urogenital e vasos linfáticos. Nesse último, o verme causa danos progressivos que promovem dificuldades circulatórias e favorecem infecções bacterianas secundárias. Por isso, inicialmente, há aumento da estase e edema, que evoluem para hiperplasia e hipertrofia da conjuntiva, hiperqueratose e espessamento da pele.

Quadro clínico da filariose

Há diversas manifestações decorrentes da congestão linfática. Entretanto, a maioria dos pacientes com filariose são assintomáticos, e não apresentam sinais inflamatórios subjacentes. A linfangiectasia subclínica é um exemplo de manifestação assintomática.

Ela pode ser avaliada através do exame ultrassonográfico com a detecção dos vermes adultos no sistema linfático. Em pacientes que apresentam manifestações clínicas, os fenômenos agudos podem caracterizar-se pelo aparecimento do linfedema, orquite e epididimite.

E ainda, a linfagite filarial aguda (LFA), que ocorre com a morte do parasita adulto nos vasos linfáticos (seja naturalmente ou pelo tratamento). A LFA, mais frequente em mulheres, produz um “cordão” subcutâneo palpável, podendo ser acompanhado de sintomas sistêmicos como mialgia, cefaleia, astenia e febre.

Linfagite filarial aguda. Fonte: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/dist%C3%BArbios-da-pele/infec%C3%A7%C3%B5es-bacterianas-da-pele/linfangite
Linfagite filarial aguda. Fonte: MDS saúde

Já as manifestações crônicas ocorrem em cerca de 1% a 20% de todos os indivíduos infectados. Nessa fase, há obstrução importante dos vasos, podendo causar o linfedema, a hidrocele e outras formas deformantes e incapacitantes.


Paciente com linfedema crônica - elefantíase. Fonte: SICILIANO, R. F. et al., Tratado de Infectologia.
Paciente com linfedema crônica - elefantíase. Fonte: SICILIANO, R. F. et al., Tratado de Infectologia.

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Como diagnosticar o paciente com elefantíase?

O diagnóstico é dado através da coleta do sangue periférico pelo método da gota espessa, e deve ser feito entre 23 horas e 1 da manhã. Isso devido as microfilárias migrarem para o sangue periférico à noite, período que coincide com a atividade do vetor.

O volume sanguíneo de 60mL e os horários da coleta devem ser respeitados, para evitar o diagnóstico falso negativo. Como visto, a ultrassonografia pode ser uma técnica muito útil para detecção do parasita adulto nos vasos linfáticos. Especialmente, nos intraescrotais do cordão espermático.

Ultrassom de vasos linfáticos na região escrotal. Seta aponta para o verme Wuchereria bancrofti, que pode ser visualizado realizando movimentos rítmicos e ininterruptos, caracterizando a “dança das filárias”. Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6629997/
Ultrassom de vasos linfáticos na região escrotal. Seta aponta para o verme Wuchereria bancrofti, que pode ser visualizado realizando movimentos rítmicos e ininterruptos, caracterizando a “dança das filárias”. Fonte: Review of Dancing Parasites in Lymphatic Filariasis

De maneira geral, o diagnóstico diferencial deve ser feito com as artrites, endomiocardiofribrose, tenossinovites e tromboflebites. Já em indivíduos com linfedema, é preciso suspeitar de doenças renais, cardiopatias e varizes.

Além disso, para aqueles com a LFA, é preciso fazer o diagnóstico diferencial com a erisipela, doença infecciosa causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A, que também infecta tecidos linfáticos.

E, finalmente, qual o tratamento para a filariose?

O tratamento é feito com a dietilcarbamazina, que elimina as microfilárias da corrente sanguínea. A dose é de 6 mg/Kg/dia, por 12 dias. Entretanto, deve-se evitar medicar crianças menores de 12 anos, gestantes e mulheres em período de lactação. Para mais, também se faz necessário evitar utilizar o medicamento em portadores de doenças crônicas.

Fontes:

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. Brasília, 2019.
  • SICILIANO, R. F. et al. Tratado de Infectologia. São Paulo: Atheneu, 2015