Estudo

Você sabe diferenciar a doença de Crohn da colite ulcerativa?

As doenças inflamatórias intestinais (DII) são condições crônicas e idiopáticas que afetam primariamente o trato gastrointestinal (TGI). Elas têm como suas principais representantes a doença de Crohn e a colite ulcerativa. Ambas são mais comuns em adolescentes e jovens adultos, com predomínio em pacientes brancos e do sexo feminino. 

Além disso, possuem apresentações clínicas semelhantes, manifestando-se com a diarreia prolongada e recidivante que pode durar décadas. Cerca de 10% dos casos de DII são diagnosticados como “colite indeterminada”, tornando a diferenciação entre essas duas comorbidades um desafio na prática médica. Assim, saber reconhecer as principais diferenças entre elas é imprescindível.

Patogenia das doenças inflamatórias intestinais

Fatores que exercem influência na patogenia das DII. Fonte: Universidade Federal do Maranhã (https://slideplayer.com.br/slide/3796204/)
Fatores que exercem influência na patogenia das DII. Fonte: Universidade Federal do Maranhão/Lícia Rodrigues

A fisiopatologia não está bem esclarecida. Entretanto, acredita-se que ocorre como resultado da interação da microbiota intestinal com a mucosa do hospedeiro com predisposição genética. Assim, em ambas as doenças, há defeitos na barreira epitelial da mucosa gastrointestinal, que apresentam sua permeabilidade aumentada. 

A consequência disso é a maior passagem das bactérias da flora intestinal e seus componentes bacterianos para o interior do epitélio. Devido a isso, o paciente desenvolveria uma resposta imune aberrante.

E mais, o desbalanceamento da microbiota parece contribuir para a exacerbação dessa resposta. Vale salientar que, a predisposição genética é mais preponderante na doença de Crohn do que na colite ulcerativa.

Doença de Crohn

Quais são as principais características?

Colonoscopia de cólon descendente de paciente com doença de Crohn. Perceba a presença da úlcera e de inflamação das paredes. Fonte: Medscape (https://emedicine.medscape.com/article/172940-overview)
Colonoscopia de cólon descendente de paciente com doença de Crohn. Perceba a presença da úlcera e de inflamação das paredes. Fonte: Medscape

Também conhecida como enterite regional, a doença de Crohn pode acometer qualquer região do trato gastrointestinal. Assim, é limitada ao intestino delgado em 40% dos casos, e, em 30% dos casos atinge ambos os intestinos: delgado e grosso. 

Todavia, comumente afeta a válvula ileocecal e o ceco, e acomete o esôfago e estômago. À macroscopia, suas principais características são a presença de “lesões em salto”. Isso significa que múltiplas áreas do TGI são acometidas de forma descontínua

E ainda, devido ao processo inflamatório crônico ocorrendo nas alças, há presença de edema, espessamento de alça e hipertrofia da musculatura intrínseca, podendo provocar obstruções intestinais.

Segmento espesso no intestino delgado. Isso ocorre devido à fibrose, consequência da inflamação crônica. Fonte: Anatpat (http://anatpat.unicamp.br/pecastgi21.html)
Segmento espesso no intestino delgado. Isso ocorre devido à fibrose, consequência da inflamação crônica. Fonte: Anatpat

Para mais, pode haver presença de úlceras “serpentiformes”, que “seguem” o trajeto das alças intestinais. A consequência delas é o desenvolvimento de fístulas, abcessos e fissuras, estas últimas podendo ser profundas e perfurar as alças.

Raio-X com achado de pneumoperitônio (setas rosas). O pneumoperitônio pode ser um achado da perfuração das alças intestinais. Fonte: MedicinaNet (https://www.medicinanet.com.br/conteudos/casos/2159/pneumoperitonio_e_outros_achados_na_radiografia_toracica.htm)
Raio-X com achado de pneumoperitônio (setas rosas). O pneumoperitônio pode ser um achado da perfuração das alças intestinais. Fonte: MedicinaNet

Já à microscopia, percebe-se aglomerações de neutrófilos nas criptas da alça, que formam abscessos e provocam distorções na arquitetura da mucosa. E ainda, o acometimento das alças é transmural, ou seja, acomete todas as camadas histológicas do TGI. Além disso, granulomas sem necrose caseosa estão presentes em 35% dos pacientes.

Leia mais:

Colite ulcerativa

Como diferenciar a enterite regional da colite ulcerativa?

Principais diferenças entre a doença Crohn e a retocolite ulcerativa. Fonte: MD Saúde (https://www.mdsaude.com/gastroenterologia/doenca-de-crohn/)
Principais diferenças entre a doença Crohn e a retocolite ulcerativa. Fonte: MD Saúde

Na colite ulcerativa, o reto sempre é acometido. Desse modo, a doença também é chamada de retocolite ulcerativa - quando acomete apenas o reto e o sigmóide - e, quando afeta todos os cólons, é denominada pancolite. A transição do cólon afetado, com presença de úlceras extensas, para o normal pode ser abrupta.

Para mais, nessa doença, há ausência do espessamento mural, a superfície serosa é normal e não há estreitamento das alças. Entretanto, os mediadores inflamatórios podem danificar a túnica muscular e alterar a função neuromuscular. Nesses casos, pode ocorrer a dilatação colônica e o megacólon tóxico, que elevam o risco de perfuração das alças.


Colonoscopia de paciente com colite ulcerativa. Fonte: Endoscopia Terapêutica

Já na microscopia, a lesão encontra-se limitada à mucosa e submucosa superficial, e não há presença de lesões em saltos. E ainda, na colite ulcerativa não há presença de granulomas.

Lâmina histológica de paciente com colite ulcerativa. Os pseudopólipos, achados frequentes na lâmina, são resultado da regeneração frequente na mucosa. Para mais, perceba que a camada muscular se encontra normal, e as lesões afetam apenas as túnicas mucosa e submucosa. Fonte: Anatpat
Lâmina histológica de paciente com colite ulcerativa. Os pseudopólipos, achados frequentes na lâmina, são resultado da regeneração frequente na mucosa. Para mais, perceba que a camada muscular se encontra normal, e as lesões afetam apenas as túnicas mucosa e submucosa. Fonte: Anatpat

Por fim, as manifestações extra-intestinais das DII, como a poliartrite migratória, podem ocorrer em ambas as doenças. Entretanto, são mais comuns da colite ulcerativa do que na doença de Crohn. 

Ademais, indivíduos com colite ulcerativa são mais propensos a desenvolverem câncer de cólon. Sendo a duração superior a 10 anos, a presença de displasias e a extensão da doença nos cólons os principais os principais fatores de risco.

Fontes:

  • KUMAR, V. et al. Bases Patológicas das Doenças. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.
  • FILHO, G. B. Bogliolo Patologia. 9 ed. Minas Gerais: Guanabara Koogan, 2016.
  • PEPPERCORN, Mark A. Definitions, epidemiology, and risk factors for inflammatory bowel disease. UpToDate. 2021.