Estudo

Doença hepática gordurosa não alcóolica

A Doença Hepática Gordurosa Não Alcóolica (DHGNA) é uma desordem metabólica caracterizada por acúmulo de gordura no parênquima hepático, acometendo 25% da população mundial. Ela tem se tornado cada vez mais frequente, devido às mudanças de hábitos do novo século. Além disso, o uso da ultrassonografia de abdome no exame de rotina possibilitou aumento do número de diagnósticos.

A ecogenicidade do fígado normal é muito semelhante à do parênquima renal. Nessa USG, o fígado se encontra hiperecóico em comparação ao rim, evidenciando um achado de esteatose hepática. Fonte: rb.org.br

Fatores de risco

Os fatores de risco associados à doença podem ser primários ou secundários. Sendo assim, a obesidade central e sobrepeso, diabetes mellitus, dislipidemia e hipertensão arterial compõem os principais fatores de risco primários. A DHGNA acomete cerca de 90% dos adultos com obesidade, está presente entre os 30% e 50% dos pacientes com diabetes mellitus tipo II e mais de 90% dos pacientes com hiperlipidemia também desenvolvem a doença. A hepatite C crônica, síndrome de ovários policísticos, hipotireoidismo, síndrome da apneia do sono, hipogonadismo e o uso de algumas classes de medicamentos (como esteroides e anabolizantes) são exemplos de fatores de risco secundários da DHGNA.

A DHGNA é uma doença de etiologia multifatorial, e sua patogênese pode ser explicada pela hipótese de “múltiplos golpes”. Desse modo, o primeiro golpe é caracterizado por aumento de ácidos graxos livres nos hepatócitos devido à lipólise, e consequente aumento de ácidos graxos circulantes decorrentes do excesso de gordura corporal e resistência insulínica periférica. Caso fatores de risco como diabetes e consumo excessivo de carboidratos não sejam controlados, haverá mais formação de gordura (lipogênese) e consequente perpetuação do quadro.

O segundo golpe ocorre devido a toxicidade promovida pelos ácidos graxos livres, provocando estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e liberação de citocinas pró-inflamatórias. Por fim, o terceiro golpe é consequência desse estresse oxidativo: há inibição da formação de novos hepatócitos maduros, aumentando o número de células progenitoras. Isso predispõe a formação do carcinoma hepatocelular (CHC).

Sintomas

A maioria dos pacientes com essa doença são assintomáticos. Entretanto, sintomas inespecíficos como fadiga e dor abdominal no quadrante superior direito podem estar presentes. No exame físico, o achado mais comum é a hepatomegalia. É fundamental a aferição da pressão arterial e a realização de exames antropométricos como o cálculo do IMC. A medida da circunferência abdominal também é importante, pois pode ser indicativa de presença de gordura visceral.

Diagnóstico

O diagnóstico da DHGNA pode ser fechado através de alguns exames: biópsia hepática (onde observamos presença de vacúolos lipídicos em torno de hepatócitos), exames de imagens ou de biomarcadores sanguíneos. Esses devem estar associados a pelo menos um dos seguintes critérios: presença de sobrepeso ou obesidade, diabetes mellitus tipo II ou evidência de disfunção metabólica (vide fluxograma abaixo). A USG de abdome é o exame de imagem de escolha para o diagnóstico de esteatose hepática, entretanto, a sensibilidade do exame é diminuída caso a esteatose seja menor que 20% e é menos eficaz em pacientes com índice de massa corporal maior que 40kg/m2.

Lâmina histológica evidenciando presença de vacúolos lipídicos em torno de hepatócitos. Por serem hidrofóbicos, os vacúolos não são capazes de se misturar ao citoplasma dos hepatócitos e, quando volumosos, deslocam o núcleo dessas células para as periferias. Fonte: anatpat.unicamp.br
Fluxograma para diagnóstico da DHGNA. Fonte: A new definition for metabolic associated fatty liver disease: an international expert consensus statement. J Hepatol. 2020; 73 (1):202-209.

O diagnóstico diferencial deve ser feito com a hepatite gordurosa alcoólica, hepatites virais, doença de Wilson e hepatites medicamentosas. Ademais, pacientes que evoluem para quadros de cirrose e CHC podem apresentar náusea, vômitos, icterícia, ascite e anorexia. O tratamento consiste na imunização contra as hepatites A e B, abstinência de álcool, perda de peso e controle dos fatores de risco.

Fontes

  • Kudaravalli P, John S. Nonalcoholic Fatty Liver. 2020 May 28. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2021 Jan–. PMID: 31082077.
  • Eslam M, et al. A new definition for metabolic associated fatty liver disease: an international expert consensus statement. J Hepatol. 2020; 73 (1):202-209.
  • FILHO, G. B. Bogliolo Patologia. 9 ed. Minas Gerais: Guanabara Koogan, 2016.