Estudo

Entendendo a glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica

A glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica (GNDA) é a glomerulopatia mais comum na infância. É uma sequela tardia da infecção - na maioria das vezes - pelo estreptococo betahemolítico do grupo A (EBGA), que se manifesta com a amigdalite ou piodermite. Entretanto, também pode ser uma consequência da infecção por pneumococos e estafilococos.

Ou ainda, por infecções virais como a caxumba, sarampo, varicela e hepatite B e C. A GNDA ocorre em 97% dos casos nos países em desenvolvimento, devido às condições de higiene precárias. Além disso, acomete mais frequentemente pré-escolares e escolares, com pico de incidência em torno dos 7 anos.

Como o estreptococo betahemolítico do grupo A provoca a glomerulonefrite?

Somente cepas nefritogênicas do EBGA são capazes de causar a glomerulonefrite. Elas apresentam a proteína M em sua cápsula, que estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos. Sequencialmente, há formação de imunocomplexos que serão depositados nos glomérulos. Desse modo, isso irá desencadear um processo inflamatório, com ativação do sistema complemento e recrutamento, principalmente, de neutrófilos e monócitos.

Glomerulonefrite difusa aguda na lâmina histológica. Os glomérulos encontram-se dilatados e com presença de células polimorfonucleadas (neutrófilos). Fonte: Anatpat (http://anatpat.unicamp.br/laminfl30.html)
Glomerulonefrite difusa aguda na lâmina histológica. Os glomérulos encontram-se dilatados e com presença de células polimorfonucleadas (neutrófilos). Fonte: Anatpat

Assim, os imunocomplexos irão causar perda da integridade dos capilares. Isso facilita a passagem de elementos que normalmente não deveriam ser filtrados para a urina, como hemácias, leucócitos e proteínas. Para mais, há também uma diminuição da superfície capilar disponível para a filtração glomerular devido a obliteração desses vasos pelas células inflamatórias.

A consequência dessa redução da taxa de filtração glomerular (TFG) é um aumento progressivo da creatinina sérica. Além da ureia e potássio, com possível evolução para uma insuficiência renal aguda. Posteriormente a redução da TFG, resulta na diminuição da oferta de sódio e água aos túbulos renais.

Paciente com edema facial, diagnosticado com GNDA. Fonte: MediFoco (https://medifoco.com.br/glomerulonefrite-pos-estreptococica/)
Paciente com edema facial, diagnosticado com GNDA. Fonte: MediFoco

No entanto, esses se encontram com função preservada. Por isso, continuará havendo a reabsorção de água e sódio, provocando um desajuste no balanço glomerulotubular. Com isso, o paciente apresenta oligúria e o aumento do volume extracelular circulante, com consequente edema e a hipertensão arterial.

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Como diagnosticar a glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica?

O indivíduo com GNDA normalmente tem a apresentação clínica da síndrome nefrítica aguda. Sendo ela caracterizada pela hematúria - normalmente macroscópica - edema e hipertensão arterial. E mais, a proteinúria também pode estar presente em grau variável.

Esses sinais e sintomas normalmente manifestam-se após 10 a 20 dias da infecção de via aérea ou da piodermite causadas pelo micro-organismo. A dosagem do complemento sérico encontra-se diminuída em aproximadamente 95% a 98% dos casos. Por isso, é uma ferramenta importante de auxílio no diagnóstico, apesar de pouco específica.

Além disso, os níveis de creatinina e ureia podem estar elevados. Assim como o título de antiestreptolisina O (ASLO), que é um anticorpo para o estreptococo betahemolítico do grupo A. Contudo, ele encontra-se elevado apenas nas amigdalites.

Qual o tratamento adequado para o indivíduo com GNDA?

Por fim, o tratamento da GNDA pode ser feito com a penicilina V na dose 25.000 a 50.000 UI/Kg/dia, por via oral, a cada 6 horas durante 8 a 10 dias. Ademais, as restrições dietéticas são fundamentais, a fim de diminuir o edema e os níveis tensionais. Assim, a criança deve realizar ingesta líquida de 20mL/Kg/dia e, além disso, deve-se diminuir a ingesta de sódio e realizar dieta rica em arroz e frutas.

Fontes:

  • NIAUDET, Patrick. Poststreptococcal glomerulonephritis. UpToDate. 2021. Disponível em: . Acesso em: 04/08/2021.
  • BURNS, D. A. R. et al. Tratado Brasileiro de Pediatria: Sociedade Brasileira de Pediatria. Barueri,4. ed. –Barueri: Manole, 2017.
  • KUMAR, V. et al. Bases Patológicas das Doenças. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.