Estudo

Desidratação na pediatria: aprendendo de vez o tratamento

A desidratação aguda acomete principalmente crianças menores de 5 anos. No Brasil, foi a principal causa de mortalidade nas crianças em décadas passadas, tendo como a principal etiologia as perdas gastrointestinais por diarreia aguda. Entretanto, com a melhora das condições sanitárias, a introdução da hidratação oral e a vacinação contra o rotavírus, houve melhora exponencial desse cenário no país.

Para classificar a desidratação, considera-se a intensidade da perda de líquidos e eletrólitos. Essa pode ser leve (até 5% de perdas líquidas), moderada (até 10% de perdas de fluidos) ou grave (superior a 10% do peso corporal). 

Ademais, também é possível classificar a desidratação de acordo com a quantidade de sódio sérico em hipertônicas, hipotônicas ou isotônicas. A isotônica é o tipo mais comum, em que as perdas de sódio e água são iguais, e o sódio sérico varia entre 130 e 150 mEq/L.

Quadro clínico

Possíveis sinais da criança desidratada. Fonte: Pediatria Virtual

Desidratação leve

A sintomatologia é leve ou ausente. O enchimento capilar é inferior a 3 segundos, há sede e redução da diurese com urina concentrada. 

Desidratação moderada 

A sede é intensa, as mucosas estão secas e há presença de taquicardia. O enchimento capilar varia entre 3 e 5 segundos.

Desidratação grave

A sede é intensa. As alterações hemodinâmicas são ainda mais acentuadas, e muitas vezes são associadas à diminuição da perfusão tecidual. O enchimento capilar é superior a 5 segundos e as extremidades são frias, com pulsos rápidos e finos. 

A hipotensão é um sinal tardio, e podem estar presentes sinais neurológicos como o torpor, a irritabilidade e coma. É através desses sinais que é possível diagnosticar o paciente desidratado, e iniciar o tratamento mais adequado.

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Tratamento

Para realizar o tratamento, oferecem-se líquidos e eletrólitos à criança. É dividido em plano A, B e C, de acordo com a gravidade da desidratação da criança. A depender do caso, é oferecido soro com solução com 90 mmol/L de sódio, e as soluções caseiras, apesar de amplamente difundidas, apenas devem ser oferecidas quando houver ausência desse soro. 

Plano A

É feito em domicílio, em crianças sem sinais clínicos de desidratação. Consiste em aumentar a oferta de líquidos e oferecer o soro de reidratação oral (SRO) de acordo com a aceitação do paciente, após cada evacuação ou vômito. A quantidade de líquido para cada faixa etária está exposta na tabela abaixo.

MENOS DE 1 ANO DE 1 A 10 ANOS MAIS DE 10 ANOS
50 a 100 mL 100 a 200 mL Quanto a criança aceitar
Tabela da quantidade de líquido que deve ser ofertada para cada faixa etária na terapia de reidratação oral (TRO). Fonte: Ministério da Saúde

Caso o paciente apresente sinais de alarme, que devem ser explicados aos pais, deve voltar para unidade de saúde. Sendo eles, a diminuição da diurese, recusa alimentar ou piora da diarréia. Ou ainda, sede excessiva, vômitos repetidos e sangue nas fezes.

Plano B ou fase de reparação

Tratamento realizado em crianças com desidratação leve a moderada. O paciente deve estar sob observação intra-hospitalar, para receber 50 a 100 mL/Kg de SRO durante 4 a 6 horas. Durante esse período, a dieta da criança deve ser suspensa, entretanto, o aleitamento materno deve ser mantido

Não é necessário saber o peso anterior dela. Todavia, a partir do início da reidratação, o paciente deve ser pesado para avaliação da hidratação oral, que deve ser feita a cada hora. 

É preciso observar se há desaparecimento dos sinais de hidratação, se há elevação do peso e presença de diurese. Se houver melhora do quadro clínico, voltar ao plano A. Entretanto, não havendo melhora, a gastróclise (introdução da sonda nasogástrica) é indicada.

Plano C

Indicado para pacientes com desidratação grave ou quando a via oral é inviabilizada. Nesse caso, quando a criança apresenta alteração do estado de consciência, íleo paralítico, convulsão e abdome agudo. 

Para quem faz parte deste plano, o soro precisa ser administrado por via parenteral. Ademais, o Ministério da Saúde afirma que a criança não precisa ser internada, devendo apenas permanecer sob observação por pelo menos 6 horas, podendo receber alta quando conseguir realizar a hidratação oral. 

Por fim, é recomendado pelo Ministério da Saúde, que o tratamento realizado no plano seja dividido em duas fases: expansão rápida, e de manutenção e reposição. Como é possível observar na tabela abaixo.  

FASE RÁPIDA (EXPANSÃO) FASE DE MANUTENÇÃO E REPOSIÇÃO
Menor que 5 anos: 20mL/Kg de soro fisiológico a cada 30 minutos. Repetir até a criança ficar hidratada. Para qualquer idade: Soro glicosado 5% + soro fisiológico a 0,9% na proporção 4:1.

Até 10Kg: 100mL/Kg

Peso entre 10 e 20Kg: 1000mL + 50mL/Kg de peso que exceder 10Kg

Peso acima de 20 Kg: 1500mL + 20mL/Kg de peso que exceder 20Kg
Maior que 5 anos: 30mL/Kg de soro fisiológico em 30 minutos + 70 mL de Ringer Lactato em 2 horas e 30 minutos. Fase de reposição: soro glicosado 5% + soro fisiológico a 0,9% em partes iguais (1:1). Iniciar com 50mL/Kg/dia. Reavaliar de acordo com as perdas por evacuações ou vômitos.

KCl a 10% em 2mL para cada 100mL de solução da fase de manutenção
Tabela para tratamento da criança sob o plano C. Fonte: Ministério da Saúde

Diante disso, é possível perceber que entender como identificar e tratar o paciente pediátrico com desidratação faz toda a diferença no seu prognóstico. Isso porque, apesar da introdução da hidratação oral e a vacinação contra o rotavírus, ela ainda pode levar ao óbito.

Fontes:

  • SOMERS, Michael J. Treatment of hypovolemia (dehydration) in children. UpToDate. 2021
  • BURNS, D. A. R. et al. Tratado Brasileiro de Pediatria: Sociedade Brasileira de Pediatria. Barueri,4. ed. –Barueri: Manole, 2017
  • Ministério da Saúde. Manejo do paciente com diarreia