Estudo

Candidíase vulvovaginal: como diagnosticar?

LMDP, 26 anos, diarista, residente e procedente de Recife, obesa e diabética, tem queixa de “secreção branca” e “muita coceira na vagina” há 6 dias. Relata que faz uso de anticoncepcional oral desde os 16 anos, e tem vida sexual ativa com parceiro fixo. Fez uso de antibiótico por 10 dias para tratar uma infecção urinária prévia há 15 dias.

O corrimento vaginal é uma das principais queixas da mulher no ambulatório de ginecologia. Existem várias etiologias, e é fundamental saber relacionar as queixas da paciente com os achados dos exames para dar o diagnóstico correto! Por isso, não perca mais um post sobre uma das principais causas de corrimento vaginal da mulher: a candidíase.

A candidíase vulvovaginal é uma doença causada por fungos do gênero Candida, que são comensais da mucosa vaginal e digestiva. É uma doença muito comum, e estima-se que 75% das mulheres vão apresentar ao menos um episódio da doença ao longo da vida. A espécie mais prevalente é a C. albicans, que está presente em 80-90% das infecções por candidíase. Diferentemente da tricomoníase, não é considerada uma IST, já que mulheres virgens também podem adquirir a doença.

Fatores de risco e sintomas

A doença ocorre por um desequilíbrio na microbiota vaginal da mulher, que vai ser desencadeado por seus fatores de risco: gravidez, anticoncepcionais com estrogênio e terapia de reposição hormonal. Isso porque são condições que aumentam os níveis de estrogênio no corpo da mulher, e promovem deposição de glicogênio na mucosa vaginal, facilitando a proliferação de fungos.

A diabetes mellitus não controlada, também é um fator de risco que altera a microbiota vaginal pelo aumento da glicose. Assim como o uso de antibióticos sistêmicos ou locais, que podem causar destruição de germes importantes da microbiota vaginal, facilitando a proliferação da Candida pela diminuição de competição local; e mulheres imunodeprimidas ou que fazem uso de medicamentos imunossupressores.

Os principais sintomas que a mulher pode apresentar são o prurido vulvovaginal, leucorreia grumosa e inodora, dispareunia, disúria e hiperemia da vagina.

Como diagnosticar a candidíase vulvovaginal?

O diagnóstico da doença pode ser dado através do exame microscópico a fresco com hidróxido de potássio a 10%, pela técnica de coloração de Gram ou pela cultura para análise da secreção vaginal.

O pH vaginal menor do que 4,5 também é indicativo de candidíase (na vaginose bacteriana e na tricomoníase, o pH fica maior que 4,5, sendo um bom diagnóstico diferencial). Além disso, o exame físico da pelve vai ser fundamental para concluir o diagnóstico e iniciar o tratamento correto.

Exame da pelve

Iniciamos o exame da pelve com a inspeção estática, em que serão avaliados os pelos pubianos (se são tricotomizados ou não), se existem lesões na pele e nas mucosas, se há presença de variações anatômicas e alterações no períneo. Ao fazer a inspeção estática da paciente do caso clínico citado anteriormente, este foi o achado:

Observe a hiperemia e o edema vaginal. Isso ocorre porque a candidíase provoca prurido intenso na mulher, que, ao coçar a área vai provocar inflamação. Para mais, fissuras vaginais e a dor durante a relação sexual, também são sintomas característicos da candidíase vulvovaginal.

Exame especular

Quando a mulher tem uma queixa de corrimento, precisamos fazer o exame especular. Esse exame vai permitir uma melhor análise do conteúdo e das paredes vaginais, e a visualização do colo uterino. Ao fazer o exame especular alguma das características estudadas são o aspecto das secreções, a coloração das paredes vaginais e do colo uterino e o odor das secreções. No exame especular da paciente em questão, esse foi o achado:

Secreção de aspecto grumoso, ou de “leite coalhado”. Fonte: blog dra. Carla Rebelo Ribas
Secreção de aspecto grumoso, ou de “leite coalhado”. Fonte: blog dra. Carla Rebelo Ribas

Toque ginecológico

Por fim, é preciso fazer o toque ginecológico. No caso da paciente com candidíase, é possível coletar a secreção com a luva e fazer uma melhor análise da consistência da secreção e verificar com maior acurácia o odor. Ao fazer o toque ginecológico e colher a secreção grumosa das paredes vaginais dessa paciente, percebe-se que a secreção é inodora.

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Tratamento

O tratamento é feito para aliviar os sintomas da doença, e não é indicado para mulheres assintomáticas. As relações sexuais não são contraindicadas durante o tratamento.

Caso a paciente seja imunossuprimida, tenha diabetes descompensada ou outra doença crônica, o tratamento é feito com azol oral ou tópico por 7 a 14 dias. Se ela for gestante, o medicamento de escolha é o clotrimazol ou miconazol tópico por 7 dias.

Candidíase vulvovaginal não complicada

No caso de pacientes com candidíase vulvovaginal não complicada, o fluconazol oral 150mg pode ser dado em dose única. Como medicamentos tópicos, o clotrimazol 1% creme e miconazol 2% creme são opções de medicamentos que devem ser aplicados via vaginal por 7 dias.

O tioconazol 6,5% e o butoconazol 2% creme também são opções de tratamento tópico por via vaginal, e devem ser aplicados em dose única. O tratamento oral, por ser mais fácil, tem maior predileção por parte da maioria das mulheres, mas possuem mais efeitos colaterais que os medicamentos tópicos.

Candidíase vulvovaginal  complicada

No caso candidíase vulvovaginal complicada, é feito o uso do fluconazol 150mg, com duas a três doses, a cada 72 horas. Isso porque o fluconazol mantém seu nível de atividade terapêutica por pelo menos 72 horas no organismo.

Candidíase vulvovaginal recorrente

Nas pacientes com candidíase vulvovaginal recorrente (4 ou mais episódios de candidíase vulvovaginal sintomática em 12 meses), devem ser administradas as duas ou três doses de fluconazol 150mg a cada 72horas, seguidas de manutenção do medicamento uma vez por semana durante 6 meses.

Outras opções de tratamento são os medicamentos tópicos por 10-14 dias. Caso a paciente seja resistente aos azois, utilizar ácido bórico 3% com óvulo intravaginal, uma vez ao dia por 14 dias.

Vaginite grave

Para pacientes com vaginite grave, além do fluconazol oral 150mg, a cada 72 horas, com duas a três doses, também é possível utilizar o medicamento tópico por 7 a 14 dias. A aplicação de corticosteroide tópico para aliviar sintomas de inflamação também é opção para o tratamento.

Cândida não albicans

C.glabrata

A medicação de escolha é o ácido bórico intravaginal 600mg por dia, por 14 dias. Normalmente não são utilizados medicamentos azois, porque no caso da C. glabatra, há falha de tratamento em 50% dos casos.  

C.krusei

Se a infecção por for C. krusei, utilizar clotrimazol intravaginal, miconazol ou terconazol por 7 a 14 dias.

Fonte:

  • HOLANDA, Antônio; FERNANDEZ, Ana; BEZERRA, Christiane; FERREIRA, Maria; HOLANDA, Manoel; HOLANDA, Julita; MILAN, Eveline. Candidíase vulvovaginal: sintomatologia, fatores de risco e colonização anal concomitante. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Rio de Janeiro, vol. 29, Janeiro 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-72032007000100002