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14/9/22

Transtorno afetivo bipolar: o que é, como identificar e tratamentos

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Transtorno afetivo bipolar: o que é, como identificar e tratamentos

O transtorno afetivo bipolar (TAB) é um transtorno psiquiátrico comum e de alta mortalidade e morbidade, sendo visto em cerca de 2,4% da população.

Pode ser de difícil diagnóstico, por muitas vezes ser confundido com quadros de transtorno depressivo maior.

No passado, já foi chamado de insanidade maníaco-depressiva. Ele é uma grande fonte de preocupação devido as suas grandes taxas de suicídio. Com isso - de acordo com Eduardo Humes, no livro: ‘Clínica psiquiátrica: guia prático’- aproximadamente de 10 a 15% das pessoas com o diagnóstico consumam o ato.

Neste post iremos entender o que é o transtorno afetivo bipolar, seus tipos, como diagnosticar 

O que é o Transtorno Afetivo Bipolar?

O transtorno afetivo bipolar é um transtorno psiquiátrico crônico, classificado pelo DSM-V como um transtorno de humor.

Ele é caracterizado por períodos recorrentes de alterações patológicas de humor, migrando do polo depressivo ao polo maníaco ou eufórico.

O episódio depressivo do TAB se assemelha ao episódio depressivo do transtorno depressivo maior, sendo muitas vezes um fator confundidor de diagnóstico.

Geralmente, se inicia de forma mais precoce que a depressão.

Etiologia

A etiologia do TAB é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

Acredita-se que ocorra uma desregulação de circuitos relacionados ao controle e ao processamento de emoções, principalmente alterações bilaterais das vias que ligam o córtex pré-frontal, amígdala e hipocampo.

Também ocorre um aumento da atividade de circuitos de recompensa associado ao estriado, córtex ventrolateral e orbitofrontal.

O paciente com transtorno afetivo bipolar tem também maiores níveis de cortisol, ACTH e citocinas inflamatórias, o que poderia ser responsável pela diminuição da substância branca cerebral vista em estudos.

Vale salientar que, é um dos transtornos psiquiátricos com maior grau de herdabilidade, podendo chegar a níveis de 68%.

Fatores de risco

Os principais fatores de risco para o transtorno bipolar são:

  • História familiar de TAB ou de outros transtornos psiquiátricos;
  • Eventos traumáticos na infância;
  • Negligência parental;
  • Uso de maconha na adolescência; e
  • Traços patológicos de personalidade, como baixa autoestima e impulsividade.

Tipos de transtorno afetivo bipolar

Os pacientes no espectro bipolar podem ser agrupados de acordo com suas características patológicas em: TAB tipo 1, TAB tipo 2 e ciclotimia.

Tipo 1

O transtorno afetivo bipolar tipo 1 é aquele em que o paciente teve pelo menos 1 episódio de mania ao longo da vida, independentemente da quantidade de episódios de depressão ou de hipomania.

Tem prevalência em 0,6% da população geral, não tendo diferença entre os sexos.

Tipo 2

O transtorno afetivo bipolar tipo 2 é aquele em que o paciente teve pelo menos 1 episódio de hipomania e 1 episódio depressivo na vida, com ausência de episódios de mania.

Tem prevalência em 0,4% da população, sendo mais comum em mulheres.

Pela ausência de episódios de mania, o diagnóstico pode ser mais difícil, por isso acaba sendo subdiagnosticado. 

Ciclotimia

O transtorno ciclotímico é caracterizado por flutuações patológicas de humor, tanto para polo depressivo como para polo maníaco, porém, esses episódios são de curta duração e com menos sintomas, não fechando critério para TAB.

Este tipo tem uma prevalência de 1,4% na população.

Quadro clínico e critérios diagnósticos

Os sintomas se dão durante as fases de depressão e de mania, e incluem alterações de humor, cognição, psicomotricidade, funções neurovegetativas, atenção, impulsividade e autoestima. 

Se inicia normalmente na adolescência ou início da vida adulta.

Episódios depressivos

No episódio depressivo, o humor encontra-se polarizado para tristeza e melancolia, como um clássico episódio depressivo de transtorno depressivo maior.

O paciente apresenta pensamentos pessimistas, com sentimentos de culpa excessiva, baixa autoestima, podendo ter pensamentos suicidas. Deve durar pelo menos 2 semanas.

Podem ocorrer alterações de psicomotricidade, com lentidão ou agitação, assim como a chamada “perna de chumbo”, que seria a sensação de peso nas pernas.

Ele costuma se queixar de baixa concentração, raciocínio lento e memória falha. Além disso, o autocuidado pode estar prejudicado, e o sono e apetite alterados, aumentados ou diminuídos.

Esses episódios costumam ocorrer mais do que os episódios maníacos e hipomaníacos.

A diferenciação da depressão bipolar para a depressão unipolar (episódio depressivo do transtorno depressivo maior) é de grande desafio para a psiquiatria.

Os critérios diagnósticos são os mesmos de um episódio depressivo unipolar.  Como vemos a seguir:

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS - EPISÓDIO DEPRESSIVO MAIOR
A. Cinco (ou mais) dos seguintes sintomas estiveram presentes durante o mesmo período de duas semanas e representam uma mudança em relação ao funcionamento anterior; pelo menos um dos sintomas é (1) humor deprimido ou (2) perda de interesse ou prazer.

Nota: Não incluir sintomas que sejam claramente atribuíveis a outra condição médica
1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio ou sem esperança) ou por observação feita por outra pessoa (p. ex., parece choroso). (Nota: Em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável)
2. Acentuada diminuição de interesse ou prazer em todas, ou quase todas, as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (conforme indicado por relato subjetivo ou observação feita por outra pessoa)
3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., mudança de mais de 5% do peso corporal em um mês) ou redução ou aumento no apetite quase todos os dias (Nota: Em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de peso esperado)
4. Insônia ou hipersonia quase diária.
5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observável por outras pessoas; não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento)
6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias
7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente)
8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outra pessoa)
9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio
B. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo
C. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição médica
D. A perturbação do humor e a mudança no funcionamento são observáveis por outras pessoas
E. O episódio não é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional ou para necessitar de hospitalização. Existindo características psicóticas, por definição, o episódio é maníaco
F. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento, outro tratamento)
Critérios diagnósticos propostos pelo DSM-V para episódio depressivo maior. Fonte: DSM-V

Episódios maníacos

No episódio maníaco, o humor do paciente encontra-se normalmente expansivo e eufórico, podendo chegar a irritado. Ele deve durar pelo menos 1 semana.

O indivíduo apresenta um aumento significativo de energia, associado a diminuição da necessidade de sono (diferencia-se da insônia por não sentir cansaço no dia seguinte).

O pensamento costuma estar acelerado, podendo gerar maior “criatividade” e “produtividade”, chegando em alguns casos até a fuga de ideias e discurso incompreensível.

Ocorre um aumento da atenção espontânea, gerando distratibilidade. Ademais, ele pode se apresentar com grande confiança, aumento da autoestima e sensação de grandiosidade.

Há um aumento também da impulsividade, podendo ser vista em gastos excessivos de dinheiro, comportamento sexual de risco e fora do padrão pessoal anterior, e comportamento agressivo.

Para mais, em casos graves podem aparecer sintomas psicóticos, catatonia e alterações na estrutura do pensamento.

Os critérios diagnósticos para os episódios maníacos podem ser vistos a seguir:

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS - EPISÓDIO MANÍACO
A. Um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e aumento anormal e persistente da atividade dirigida a objetivos ou da energia, com duração mínima de uma semana e presente na maior parte do dia, quase todos os dias (ou qualquer duração, se a hospitalização se fizer necessária)
B. Durante o período de perturbação do humor e aumento da energia ou atividade, três (ou mais) dos seguintes sintomas (quatro se o humor é apenas irritável) estão presentes em grau significativo e representam uma mudança notável do comportamento habitual: 1. Autoestima inflada ou grandiosidade
2. Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se descansado com apenas três horas de sono)
3. Mais loquaz que o habitual ou pressão para continuar falando
4. Fuga de ideias ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão acelerados
5. Distratibilidade (i.e., a atenção é desviada muito facilmente por estímulos externos insignificantes ou irrelevantes), conforme relatado ou observado
6. Aumento da atividade dirigida a objetivos (seja socialmente, no trabalho ou escola, seja sexualmente) ou agitação psicomotora (i.e., atividade sem propósito não dirigida a objetivos)
7. Envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências dolorosas (p. ex., envolvimento em surtos desenfreados de compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos)
C. A perturbação do humor é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional ou para necessitar de hospitalização a fim de prevenir dano a si mesmo ou a outras pessoas, ou existem características psicóticas
D. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento, outro tratamento) ou a outra condição médica
Critérios diagnósticos propostos pelo DSM-V para episódio maníaco. Fonte: DSM-V

Episódios hipomaníacos

O episódio hipomaníaco tem natureza semelhante ao maníaco, porém, de menor intensidade e duração (apenas 4 dias), sem sintomas psicóticos. Por isso, muitas vezes pode passar despercebido por pessoas do convívio. 

Para diagnosticá-los, é preciso ficar atento aos seguintes critérios: 

CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS - EPISÓDIO HIPOMANÍACO
A. Um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e aumento anormal e persistente da atividade ou energia, com duração mínima de quatro dias consecutivos e presente na maior parte do dia, quase todos os dias
B. Durante o período de perturbação do humor e aumento de energia e atividade, três (ou mais) dos seguintes sintomas (quatro se o humor é apenas irritável) persistem, representam uma mudança notável em relação ao comportamento habitual e estão presentes em grau significativo: 1. Autoestima inflada ou grandiosidade
2. Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se descansado com apenas três horas de sono)
3. Mais loquaz que o habitual ou pressão para continuar falando
4. Fuga de ideias ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão acelerados
5. Distratibilidade (i.e., a atenção é desviada muito facilmente por estímulos externos insignificantes ou irrelevantes), conforme relatado ou observado
6. Aumento da atividade dirigida a objetivos (seja socialmente, no trabalho ou escola, seja sexualmente) ou agitação psicomotora
7. Envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências dolorosas (p. ex., envolvimento em surtos desenfreados de compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos)
C. O episódio está associado a uma mudança clara no funcionamento que não é característica do indivíduo quando assintomático
D. A perturbação do humor e a mudança no funcionamento são observáveis por outras pessoas
E. O episódio não é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no funcionamento social ou profissional ou para necessitar de hospitalização. Existindo características psicóticas, por definição, o episódio é maníaco
F. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento, outro tratamento)
Critérios diagnósticos propostos pelo DSM-V para episódio hipomaníaco. Fonte: DSM-V

Período eutímico 

O período eutímico é o período assintomático, no qual o indivíduo não se apresenta em nenhum dos polos.

Diagnóstico diferencial

É importante o afastamento de outras causas antes de diagnosticar o transtorno bipolar.

Alguns diagnósticos diferenciais não psiquiátricos que podem se assemelhar a mania são: demências, neoplasia do sistema nervoso central, esclerose múltipla, epilepsia, neurossífilis e hipertireoidismo.

E ainda, encefalites autoimunes, infecção do SNC, doença de Cushing, doença de Addison e deficiência de vitamina B12.

O uso de algumas substâncias também pode gerar quadros semelhantes a mania, como psicoestimulantes, imunomoduladores, drogas de abuso como álcool, LSD, cocaína etc.

Já os diagnósticos diferenciais psiquiátricos do transtornotranstorno afetivo bipolar são: transtornos depressivos, transtornos psicóticos, transtorno induzido por substâncias, e transtorno de personalidade borderline.

Além dos transtornos de ansiedade, transtorno de personalidade narcisista, transtorno de personalidade antissocial e TDAH.

Como funciona o tratamento?

O tratamento do transtorno bipolar é complexo, dependendo do polo em que o paciente se encontre.

Ele é feito por meio da terapia medicamentosa, psicoterapia e psicoeducação.

Quando o indivíduo se encontra em algum polo, o objetivo é controlar os sintomas. Quando ele se encontra no período eutímico, o objetivo é prevenir novas fases.

Tratamento medicamentoso

A terapia medicamentosa é baseada no uso dos estabilizadores de humor, especialmente o lítio, anticonvulsivantes e antipsicóticos, como a quetiapina e risperidona.

O lítio é o medicamento de escolha, podendo ser associado a antipsicóticos na presença de sintomas psicóticos ou antidepressivos, quando no polo depressivo.

Cuidado para prescrição 

Um dos cuidados em relação ao uso de antidepressivos no polo depressivo é a chamada “virada maníaca”, onde o medicamento causaria uma troca do polo depressivo pelo maníaco, ao invés de controlar os sintomas depressivos.

Por isso, o uso de antidepressivo pode ser feito no polo depressivo, mas com seus devidos cuidados e sempre associado a um estabilizador do humor.

Além disso, outro cuidado é com a gestação, já que o lítio e o valproato podem gerar má formação fetal.

Psicoterapia

A psicoterapia é essencial no tratamento do transtorno bipolar. Ela tem como objetivo lidar com as questões psicológicas que podem contribuir para a precipitação de crises e lidar com as dificuldades de cada fase.

A abordagem mais recomendada é a terapia cognitivo comportamental.

Outros

Para pacientes com TAB, a psicoeducação é muito importante, para uma melhor compreensão do quadro, identificação de fatores de risco e adesão de tratamento.

Além disso, a estabilização de um ciclo circadiano regular, com horário determinado para dormir e acordar, e a prática de exercícios físicos também mostraram contribuição.

Conclusão

O transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica crônica e comum, podendo ser grave e de difícil diagnóstico.

Caracterizada pela mudança de humor, afeto, cognição e até mesmo psicomotricidade entre episódios depressivos e episódios maníacos.

O tratamento é feito por meio dos estabilizadores de humor, como o lítio. Além disso, a associação com psicoterapia é essencial.

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