Estudo

Aprenda a reconhecer os principais tumores cerebrais

Os tumores do sistema nervoso central (SNC) atingem 30 a cada 100.000 pacientes e representam 20% de todos os tumores pediátricos. Eles possuem particularidades em relação a neoplasias de outros locais do corpo. Sendo assim, quando primários, não dão metástase para outros órgãos e, além disso, mesmo os benignos podem apresentar um mau prognóstico.

Isso porque sua expansão pode comprimir estruturas vitais, como o hipotálamo e tronco cerebral, levando a déficits clínicos importantes, e até mesmo a uma parada cardiorrespiratória. Por isso, não perca o post dessa semana sobre esse assunto tão relevante para a prática médica!

Os tumores do SNC são classificados de acordo com o tecido de origem. Assim, podem ser neuroectodérmicos (com origem em células da glia ou de neurônios), mesodérmicos ou metastáticos. Os principais tumores que serão abordados estão listados na tabela abaixo.

TUMORES NEUROECTODÉRMICOS TUMORES MESODÉRMICOS TUMORES METASTÁTICOS
(principais locais de origem)

Astrocitomas
Meningeoma Mama
Oligodendroma   Pele (melanoma)
Meduloblastoma   Pulmão
Ependimoma   Rim
    Trato gastrointestinal

Tumores neuroectodérmicos

Astrocitomas

Os astrocitomas são tumores de células gliais. Sendo classificados como astrocitomas difuso ou pilocítico, de acordo com sua localização e aspecto histológico. O astrocitoma pilocítico é mais frequente em crianças, apresentando baixo grau de malignidade (grau I) e localização predominante no cerebelo. 

Lâmina de um astrocitoma pilocítico. O tumor tem o nome “pilocítico” devido ao prolongamento dos astrócitos neoplásicos, que lembram “pelos”, como em uma cabeleira. Perceba que, nesse tumor, há poucas atipias celulares. Fonte: Anapat
Lâmina de um astrocitoma pilocítico. O tumor tem o nome “pilocítico” devido ao prolongamento dos astrócitos neoplásicos, que lembram “pelos”, como em uma cabeleira. Perceba que, nesse tumor, há poucas atipias celulares. Fonte: Anapat

Já o astrocitoma difuso corresponde a 80% dos gliomas em adultos, sendo mais frequentes na faixa etária de 40 a 60 anos, e acometem predominantemente os hemisférios cerebrais. Com a análise das lâminas histológicas (se há presença de mitoses, atipias nucleares, necrose, proliferação vascular), os astrocitomas podem ser classificados em difusos (grau II), anaplásicos (grau III) ou glioblastomas multiformes (grau IV).

Lâmina histológica apresentando um pseudoglomérulo. Isso ocorre quando há uma proliferação vascular muito intensa, que mimetiza capilares glomerulares. Esse é um achado muito característico dos glioblastomas. Fonte: Anapat
Lâmina histológica apresentando um pseudoglomérulo. Isso ocorre quando há uma proliferação vascular muito intensa, que mimetiza capilares glomerulares. Esse é um achado muito característico dos glioblastomas. Fonte: Anapat


O astrocitoma pode permanecer estático por muitos anos, mas progride rapidamente, provocando uma rápida deterioração clínica do paciente. À medida em que surgem as características anaplásicas, o prognóstico torna-se mais sombrio.

Lâmina demonstrando uma necrose em pseudopaliçada, característico dos glioblastomas. Note que, nesse achado, o centro necrótico é circundado por células neoplásicas. Fonte: Anapat
Lâmina demonstrando uma necrose em pseudopaliçada, característico dos glioblastomas. Note que, nesse achado, o centro necrótico é circundado por células neoplásicas. Fonte: Anapat
Tomografia de crânio com contraste de um glioblastoma, demonstrando uma grande lesão no hemisfério direito. Perceba que essa lesão é heterogênea, de centro hiperdenso circundando por áreas hipodensas, que podem corresponder a edema ou infiltrações neoplásicas. Há deslocamento da linha média, e os ventrículos estão colabados e deslocados. Fonte: Anapat
Tomografia de crânio com contraste de um glioblastoma, demonstrando uma grande lesão no hemisfério direito. Perceba que essa lesão é heterogênea, de centro hiperdenso circundando por áreas hipodensas, que podem corresponder a edema ou infiltrações neoplásicas. Há deslocamento da linha média, e os ventrículos estão colabados e deslocados. Fonte: Anapat

Ependimomas

São tumores de origem nas células ependimárias e, por isso, normalmente estão localizados próximos ao sistema ventricular. Na segunda década de vida, normalmente localizam-se próximos ao 4º ventrículo e, em adultos, estão mais comumente localizados na medula espinal. Ademais, recidivas são frequentes, tornando o prognóstico final sombrio.

Lâmina demonstrando aspecto típico dos ependimomas: a formação de pseudorosetas perivasculares. As células lançam prolongamentos em direção aos vasos, mas os núcleos continuam nas periferias. Fonte: Anapat
Lâmina demonstrando aspecto típico dos ependimomas: a formação de pseudorosetas perivasculares. As células lançam prolongamentos em direção aos vasos, mas os núcleos continuam nas periferias. Fonte: Anapat

Oligodendromas

São tumores menos frequentes, representando de 5% a 15% dos tumores da glia. A incidência deles é prevalente entre a quarta e quinta década de vida, com localização predominante nos hemisférios cerebrais, especialmente nos lobos frontal e temporal.

Meduloblastoma

Ressonância magnética (RM) em T1, sem contraste, de um meduloblastoma. Perceba que a lesão é heterogênea e bem delimitada. Fonte: Anapat
Ressonância magnética (RM) em T1, sem contraste, de um meduloblastoma. Perceba que a lesão é heterogênea e bem delimitada. Fonte: Anapat

É uma neoplasia de células embrionárias e corresponde a 20% dos tumores cerebrais pediátricos. Tendo localização exclusiva no cerebelo e, apesar de ser altamente maligno, é muito radiossensível. Com o tratamento adequado, a taxa de sobrevida em 5 anos pode ser de até 75%.


RM em T1, com contraste, de um meduloblastoma. Fonte: Anapat
RM em T1, com contraste, de um meduloblastoma. Fonte: Anapat

Leia também:

Tumores mesodérmicos

Meningeomas

O meningeoma é um tumor benigno, de origem nos fibroblastos aracnóideos, sendo caracterizado por ser bem delimitado e, em grande parte dos casos, está aderido à dura-máter. A sua localização é frequente ao longo do seio sagital superior e especialmente na cavidade anterior do crânio. Ademais, sua expansão não apresenta um padrão infiltrativo no parênquima cerebral.

RM em T1, com saturação de gordura. Na imagem, é possível observar uma massa hiperintensa, formada devido ao espessamento da dura-máter. Esse é o “sinal da cauda dural”. Apesar desse achado não ser patognomônico do meningeoma, é fortemente sugestivo dessa doença, devido a sua frequência ser muito superior em relação a outras patologias que provocam o surgimento desse sinal. Fonte: Radiopaedia (https://radiopaedia.org/articles/dural-tail-sign-1)
RM em T1, com saturação de gordura. Na imagem, é possível observar uma massa hiperintensa, formada devido ao espessamento da dura-máter. Esse é o “sinal da cauda dural”. Apesar desse achado não ser patognomônico do meningeoma, é fortemente sugestivo dessa doença, devido a sua frequência ser muito superior em relação a outras patologias que provocam o surgimento desse sinal. Fonte: Radiopaedia

Tumores metastáticos

As metástases representam uma taxa entre 25% e 50% de todos os tumores intracranianos e ocorrem sempre através da via hematogênica. Assim, a maioria delas atinge o cérebro e o cerebelo. Com isso, raramente chegam ao tronco cerebral e a medula, devido a circulação sanguínea ser mais escassa nesses locais. Além do mais, atingem principalmente adultos a partir da quinta década de vida e idosos.

TC sem contraste em corte coronal de paciente com metástase cerebral de melanoma. Perceba que a lesão é bem delimitada e é hiperdensa em relação ao córtex, devido ao pigmento da melanina presente no tumor. A área hipodensa nas periferias da lesão é característica do edema circunjacente. Fonte: Radiopaedia
TC sem contraste em corte coronal de paciente com metástase cerebral de melanoma. Perceba que a lesão é bem delimitada e é hiperdensa em relação ao córtex, devido ao pigmento da melanina presente no tumor. A área hipodensa nas periferias da lesão é característica do edema circunjacente. Fonte: Radiopaedia

Como exposto na tabela acima, as principais localizações dos tumores primários que metastizam para o parênquima cerebral são a mama, os pulmões, a pele, os rins e o trato gastrointestinal, representando 80% de todos os casos. Esses formam massas bem delimitadas, normalmente entre a substância cinza e branca, provocando edema local. Além disso, quase sempre apresentam necrose.

Fontes:

KUMAR, V. et al. Bases Patológicas das Doenças. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.