Estudo

Neoplasias Uroteliais: tumores de bexiga

As neoplasias uroteliais ou de células transicionais representam 90% de todos os tumores primários de bexiga, ureter e pelve renal. Elas podem estar limitadas ao epitélio de revestimento (sendo classificadas como superficiais) e podem invadir a camada muscular ou se disseminar para órgãos adjacentes ou gânglios linfáticos, caracterizando a doença metastática. Esse é o 6ª tipo de neoplasia mais comum entre os homens e o 19ª mais comum entre as mulheres, e 80% dos casos ocorrem após os 50 anos de idade.

Fatores de risco

O tabagismo é considerado o principal fator de risco, estando presente em mais de 50% das neoplasias de células transicionais. Outros fatores de risco associados são: trabalho na indústria petroquímica, com derivados de anilina e aminas aromáticas; uso de analgésico contendo fenacetina, acetaminofem, citostáticos e ciclofosfamida. E ainda, indivíduos com infecções urinárias crônicas, estase urinária; divertículos na bexiga; e mutações do gene TP53 e do oncogene RAS. 

Devido a bexiga ser o reservatório da urina, é natural que seja exposta a grande quantidade de substâncias que podem ser tóxicas ao organismo. As neoplasias uroteliais são mais frequentes no trígono da bexiga, pois a estagnação da urina nessa região mantém o epitélio em contato prolongado com substâncias que podem ser cancerígenas.

Representação da anatomia da bexiga. Fonte: bexiga - Anatomia Veterinária I

Classificações

As neoplasias uroteliais podem ser divididas em três tipos: papiloma, neoplasias uroteliais de baixo potencial de malignidade e carcinoma urotelial.

Papiloma

O papiloma é uma neoplasia rara, representando entre 1% e 2% de todos os tumores vesicais. Acomete indivíduos mais jovens, e normalmente é solitário, mas pode surgir com lesões múltiplas, sendo denominado papilomatase. Devido à contração da parede vesical, o papiloma pode sofrer lacerações e hemorragias, se desprendendo e sendo excretado pela urina junto com sangue, manifestando-se como hematúria. 

Neoplasias uroteliais de baixo grau de malignidade

As neoplasias uroteliais de baixo grau de malignidade possuem maior espessura em relação aos papilomas, e os núcleos celulares são aumentados. Além disso, é raro o encontro de mitoses na lâmina, possui atipias mínimas e é pouco invasivo. Ademais, o aspecto típico do epitélio transicional é mantido.

Carcinoma urotelial

O carcinoma de células transicionais (CCT) representa 90% de todas as neoplasias de bexiga. Pode ser solitário, mas é multifocal na maioria dos casos. Podem ser classificados como tumores de baixa malignidade e de alta malignidade, dependendo de achados histopatológicos. São eles: grau de atipias celulares, índice mitótico e grau de invasão das paredes da bexiga, sendo esse último o critério mais importante. Mais de 50% dos pacientes diagnosticados com CCT de alto grau de malignidade não sobrevivem após 10 anos de diagnóstico.

Quadro clínico

O quadro clínico é caracterizado pela hematúria macroscópica, que está presente em 85% dos pacientes e pode ser dolorosa (caso haja eliminação de coágulos pela urina) ou não. Grandes tumores podem provocar urgência miccional, devido a redução da capacidade vesical. Disúria e polaciúria também podem estar presentes.

Tabela para classificação das neoplasias de bexiga. Fonte: Câncer de bexiga: estadiamento e tratamento

O sistema TNM para classificação dos tumores de bexiga é aceito mundialmente e divide os tumores em superficiais e invasivos. O estadiamento histopatológico das neoplasias uroteliais é feito a partir da ressecção transuretral (RTU) por cistoscopia para análise da invasão dos tecidos. O Raio-X de tórax é indicado para estadiamento de metástases pulmonares, e a Tomografia Computadorizada (TC) de abdome é indicada em caso de tumores invasivos ou risco de lesão do trato urinário. Metástases são comuns, e normalmente acometem linfonodos regionais e órgãos adjacentes (próstata, vesículas seminais, retroperitônio). Metástases a distância ocorrem apenas em fases tardias e atingem principalmente os pulmões, fígado, encéfalo e ossos.

Representação da classificação TNM de acordo com a invasão de cada camada da bexiga. Fonte: Câncer de bexiga Urovideo.org
Representação de como é feita a cistoscopia. Fonte: Tumor maligno da bexiga | Espaço Saúde

Tratamento

O tratamento inicial também é realizado através da RTU, que é indicada para todos os tumores ou lesões tumorais suspeitas. São utilizados quimioterápicos e imunoterápicos, como a vacina de BCG, que reduzem de forma significativa a recidiva dos tumores, e são a terapia intravesical de escolha para pacientes com tumor superficial de alto risco. A mitomicina C, a doxorrubicina e epirrubicina são alguns dos quimioterápicos utilizados. Para mais, a cistectomia é o tratamento mais eficiente para o tumor invasivo de bexiga e tumores superficiais de alto risco, entretanto, devido às altas taxas de morbidade e mortalidade, deve-se levar em conta a qualidade de vida do paciente antes de se optar por realizar o procedimento.

Fonte

  • NARDOZZA, A. J.; ZERATI, M. F.; BORGES, R. R. Urologia Fundamental. São Paulo, PLANMARK, 2010.
  • FILHO, G. B. Bogliolo Patologia. 9 ed. Minas Gerais: Guanabara Koogan, 2016.