Estudo

Entenda o que são arboviroses, seus tipos, sintomas, diagnóstico e tratamento

Arboviroses é o nome que damos ao grupo de doenças causadas pelos arbovírus – e estes incluem os vírus da dengue, Zika, febre Chikungunya e da febre amarela. A classificação arbovírus engloba todos os vírus transmitidos por artrópodes, principalmente mosquitos

A ampla distribuição dos mosquitos vetores das doenças – estando associada ao fenômeno da urbanização, da destruição progressiva de ambientes silvestres e do aquecimento global – é o principal fator facilitador da circulação desses agentes pelos continentes. 

Em 2021, segundo os dados mais recentes da Fiocruz, foram notificados no Brasil 72.093 casos de dengue. Esse número, embora alto, representa uma diminuição de 75% em relação ao ano de 2020. 

Estima-se que tal diminuição se deva à pandemia da Covid-19, que levou a população a procurar menos atendimentos e a uma subnotificação dos casos gerada pela sobrecarga do sistema de saúde.

Os arbovírus estão presentes em mais de 120 países, em regiões tropicais e subtropicais, aparecendo principalmente em áreas urbanas, pobres e periféricas do mundo. Estima-se que cerca de 4 bilhões de pessoas estejam expostas ao risco de infecção pelos arbovírus.

O que são arboviroses?

Arboviroses são as doenças causadas pelos arbovírus, que são vírus cujos vetores de transmissão estão no filo dos artrópodes – em especial, os mosquitos.

Quais são as arboviroses?

Quais são as arboviroses?

Entre os arbovírus, os principais gêneros causadores de doenças no ser humano são: Flavivírus (vírus da dengue, zika vírus e vírus da febre amarela) e Alphavirus (vírus Chikungunya), comumente transmitidos por fêmeas do mosquito do gênero Aedes (A. aegypti e A. albopictus).

Assim, as principais arboviroses – e as que trataremos neste texto – são a dengue, a zika, a febre amarela e a febre Chikungunya. Há outras menos comuns, como, por exemplo, a febre do Nilo Ocidental e a febre Mayaro.

Dengue

A dengue é uma doença febril aguda que, quando sintomática, é sistêmica, dinâmica e possui amplo espectro clínico.

Etiologia e transmissão

Apesar de haver relatos de transmissões verticais e transmissões por transfusão de sangue, a dengue é essencialmente transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti contaminado pelo vírus.

O vírus da dengue é um vírus de RNA e possui 5 sorotipos; 4 deles presentes no Brasil. São eles DenV 1, 2, 3, 4 e 5 (este último identificado apenas na Ásia até hoje). O que possui maior circulação no país é o DenV 2.

O ciclo de transmissão se dá da seguinte forma:

  1. A fêmea do Aedes aegypti adquire o vírus se alimentando do sangue de um indivíduo infectado (na fase de viremia, que começa um dia antes do aparecimento da febre e vai até o sexto dia de doença);
  2. Após 8 a 12 dias, período no qual o vírus se multiplica nas glândulas salivares da fêmea do mosquito, surge e capacidade de transmissão;
  3. A fêmea faz postura de ovos em coleções de água parada (poços, pneus velhos, vasos de plantas), onde se desenvolvem as larvas;
  4. Após a ovoposição, os ovos são capazes de resistir ao ressecamento durante o transporte para outro local. Eventual exposição a chuva reidrata os ovos, que então eclodem suas larvas já no ambiente de destino. Estes ovos podem permanecer viáveis por até um ano.
Etiologia e transmissão dengue

Sinais e sintomas

Os sinais e sintomas mais comuns da dengue clássica são:

  • Petéquias (pode ou não haver prova do laço positiva);
  • Rash cutâneo;
  • Dor retroorbital;
  • Leucopenia (com linfocitose relativa);
  • Trombocitopenia leve;
  • Cefaleia;
  • Náuseas e vômitos;
  • Mialgia;
  • Artralgia.

São considerados sinais de alarme para gravidade os seguintes:

Disfunção leve de órgãos Plaquetopenia (fenômenos hemorrágicos) Hemoconcentração
- Dor abdominal intensa e contínua à palpação

- Vômitos persistentes

- Hepatomegalia > 2 cm

- Letargia ou irritabilidade (principalmente em crianças

- Sangramento de mucosas (gengivorragia, metrorragia etc.)

- Redução dos fatores de coagulação: hematoma, hemartrose

- Aumento progressivo do hematócrito

- Hipotensão postural

- Acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural, derrame pericárdico)

Febre Chikungunya

A febre Chikungunya é, como já diz seu nome, uma doença febril que causa sintomas em cerca de 90% dos pacientes infectados. Como a dengue, é um quadro sistêmico e de amplo espectro clínico.

Etiologia e transmissão

É causada pela picada do mosquito – podendo ser o Aedes aegypti ou o Aedes albopictus – infectado pelo vírus. Também há relatos de transmissão vertical, interpessoal e por transfusão sanguínea na fase de viremia, embora sejam raros.

O mosquito pode adquirir o vírus CHIKV picando um indivíduo infectado durante o período de viremia, que vai de dois dias antes do início dos sintomas até o oitavo dia de doença.

O período de incubação pode ir de 1 até 12 dias, embora a média normal seja de 1 a 4 dias.

Nos demais aspectos, seu ciclo acontece como o da dengue (e das outras arboviroses).

Sinais e sintomas

O quadro causado pela febre Chikungunya se assemelha muito ao da dengue, mas costuma ser uma doença menos grave e com maior sintomatologia articular.

Na fase aguda temos a presença de:

  • Febre alta e súbita;
  • Poliartralgia intensa;
  • Náuseas e vômitos;
  • Exantema (50% dos casos) do 2º ao 5º dia após o início da febre, principalmente em tronco e extremidades;
  • Poliartrite simétrica principalmente em mãos, punhos e tornozelos;
  • Edema;
  • Tenossinovite.

Há risco de cronificação da doença, especialmente na população acima dos 45 anos de idade, do sexo feminino e com patologia articular pré-existente.

As formas graves da febre Chikungunya acometem, com maior frequência, pacientes com comorbidades prévias (história de convulsão febril, diabetes, asma, insuficiência cardíaca, alcoolismo, doenças reumatológicas, anemia falciforme, talassemia e hipertensão arterial sistêmica), crianças, pacientes acima de 65 anos e pessoas em uso de certos fármacos (aspirina, anti-inflamatórios e paracetamol em altas doses).

Os principais sinais de gravidade e critérios para internação são:

  • Dispneia;
  • Dor torácica;
  • Acometimento neurológico;
  • Sinais de choque;
  • Vômitos persistentes;
  • Descompensação da doença de base;
  • Sangramento de mucosas.

Zika

O primeiro grande surto de Zika no Brasil ocorreu em meados de 2015, na região do Nordeste (Rio Grande do Norte e Bahia tendo sido os primeiros estados a notificarem).

Trata-se de mais uma doença febril aguda sistêmica, com amplo espectro de sinais e sintomas. Mais de 80% dos infectados são assintomáticos.

Etiologia e transmissão

A picada do mosquito Aedes aegypti ou Aedes albopictus contaminado pelo Zika vírus (ZIKAV) é a causa e principal forma de transmissão da Zika. Há relatos raros de transmissões transplacentárias e sexuais, a transmissão através de transfusão sanguínea ainda está sob investigação.

O período de incubação da doença vai de 2 a 14 dias e ela é autolimitada, durando geralmente de 3 a 7 dias.

Sinais e sintomas

A Zika, como diferencial entre as demais arboviroses aqui citadas, tem como importante diferencial um maior tropismo pelo sistema nervoso central (neurotropismo).

Como dito acima, mais de 80% das infecções são assintomáticas. Quando sintomáticas, porém, podemos encontrar:

  • Febre;
  • Mal-estar;
  • Cefaleia;
  • Conjuntivite não purulenta;
  • Poliartralgia;
  • Edema articular;
  • Rash maculopapular pruriginoso no período da febre (enquanto na dengue esse rash ocorre no período de defervescência).

Os exames laboratoriais costumam ser inespecíficos, mas são relatadas leuco e trombocitopenias de leve a moderadas. Ainda podemos encontrar elevação da desidrogenase lática sérica, da gama-GT e dos marcadores de atividade inflamatória.

Uma das principais complicações da Zika, que detalharemos mais abaixo, é sua associação com microcefalia na síndrome congênita do Zika vírus em fetos e recém-nascidos cujas mães apresentaram infecções durante a gestação.

Febre amarela

A febre amarela é uma doença febril aguda, autolimitada, de curta duração, amplo espectro clínico e gravidade variável.

Sua forma urbana já foi erradicada há cerca de 7 décadas, portanto hoje ela é considerada uma arbovirose silvestre. Ainda há risco de reurbanização porém, especialmente em cidades inseridas em ambientes silvestres tropicais.

Etiologia e transmissão

A febre amarela é transmitida, em ambientes silvestres, pela picada do mosquito Haemagogus e Sabethes. São seus hospedeiros tanto humanos quanto outros primatas, principalmente macacos dos gêneros Cebus, Alouatta, Ateles e Callithrix.

Em ambiente urbano, antes da erradicação, o Aedes aegypti era o vetor.

Etiologia e transmissão febre amarela

Sinais e sintomas

A maioria das infecções – cerca de 90% – é assintomática ou oligossintomática. Dos sintomáticos, de 15 a 60% podem evoluir da forma leve/moderada para a grave ou maligna, esta última apresentando alta taxa de mortalidade.

Abaixo, trouxemos um quadro com as principais diferenças do quadro sintomatológico entre elas:

Forma Sinais e sintomas Alterações laboratoriais
Leve/moderada Febre, cefaleia, mialgia, náuseas, icterícia ausente ou leve. Sinal de Faget Plaquetopenia, elevação moderada de transaminases, bilirrubina normal ou discretamente elevada (domínio de direta)
Grave Todos os anteriores, icterícia intensa, manifestações hemorrágicas (melena, hematêmese, entre outras), oligúria, diminuição de consciência Plaquetopenia intensa, aumento de creatinina, elevação importante para transaminases
Maligna Todos os sintomas clássicos da forma grave intensificados Todos os anteriores, coagulação intravascular disseminada

Como diferenciar as arboviroses durante o diagnóstico?

O diagnóstico final, embora haja algumas diferenças entre os quadros clínicos das arboviroses, sempre deve ser confirmado por exames como a sorologia IgM e IgG e, principalmente, pelo RT-PCR

A febre amarela, por ocorrer hoje apenas em áreas silvestres, essencialmente possui em seu histórico a presença nestes ambientes. Além do mais, contamos com uma vacina com alta eficácia para sua prevenção, administrada principalmente antes de viagens a ambientes onde a doença é endêmica.

Portanto, a diferenciação mais importante é entre as três arboviroses mais comuns em ambientes urbanos. Veja abaixo uma tabela que traz as principais diferenças entre os quadros clínicos de dengue, Zika e Chikungunya.

Como diferenciar as arboviroses durante o diagnóstico?

Quais são os tratamentos para as arboviroses?

O tratamento para as arboviroses, de forma geral, é de suporte. Os AINES e corticoides devem ser evitados nas fases agudas.

As medidas de suporte incluem:

  • Hidratação;
  • Analgésicos;
  • Antipiréticos;
  • Antieméticos;
  • Anti-histamínicos;
  • Avaliação para pesquisa de sinais de alarme;
  • Repetição seriada de exames laboratoriais.

Em casos graves pode haver indicação de expansão com cristaloides, coloides, vitamina K, transfusão de plasma fresco (em caso de coagulopatia) ou hemácias.

Quais as possíveis complicações das arboviroses?

Dengue

A principal complicação é o desenvolvimento da dengue grave, forma clínica caracterizada por choque, sangramento grave (hematêmese, melena, hemorragia no sistema nervoso central), e comprometimento grave de órgãos (encefalite, hepatite, miocardite, entre outros).

A instalação do choque é muito rápida e, se não diagnosticada precocemente, pode levar à morte.

Zika

A síndrome congênita do Zika vírus e sua associação com a microcefalia em fetos e recém-nascidos de gestantes que contraíram o vírus, é o aspecto mais preocupante da doença.

O ZIKAV tem a capacidade de atravessar a barreira hematoplacentária e acometer o feto, principalmente o sistema nervoso que está em formação. A partir da 18ª semana de gestação, podem ser notadas as primeiras alterações, tais quais a presença de calcificações cerebrais e/ou alterações ventriculares.

O vírus da Zika também pode causar hipoplasia cerebelar, hipoplasia do vermis cerebelar, alargamento da fossa posterior maior e agenesia ou hipoplasia do corpo caloso.

Chikungunya

O principal risco da febre Chikungunya é o desenvolvimento de uma fase crônica, ou seja, a presença de sequelas que podem permanecer por toda a vida.

Poliartrite distal, síndrome do túnel do carpo, síndrome vascular periférica, depressão e cansaço são afecções comuns em pacientes que desenvolveram sua forma crônica.

Febre amarela

Sua forma maligna, que pode ser identificada pela presença de icterícia, colúria, oligúria e hemorragias, pode levar ao choque e morte.

Conclusão

As arboviroses são doenças de altíssima incidência, prevalência e grandes causadoras de epidemias – especialmente em países tropicais. Portanto, afetam nossa saúde pública como um todo. 

Com a presença de fatores como a urbanização, a destruição progressiva de biomas, o uso do subsolo para extração de riquezas minerais e o aquecimento global, é esperado que essas epidemias aconteçam com mais frequência e ainda que surjam outros sorotipos dos arbovírus em questão.

Portanto, a chave aqui é a prevenção. Já possuímos uma vacina eficaz contra a febre amarela, e esforços vêm sendo empregados com algum sucesso no desenvolvimento de uma contra a dengue. As outras arboviroses permanecem sem vacina, por ora.

Medidas de prevenção como a educação a respeito dessas doenças, suas formas de transmissão e a eliminação de seus vetores (os mosquitos) por meio da limpeza de ambientes que contenham lixo e água parada são essenciais.

Leia mais:

Residência em Neurocirurgia: Como é, rotina, áreas de atuação e mercado de trabalho

Como tratar um paciente com hipertensão arterial?

Covid-19: Saiba como ela pode afetar a reprodução masculina