Estudo

Implicações da administração de paracetamol durante a gravidez

Estudo publicado no último dia 23 de setembro, na revista Nature, mostrou quais as repercussões do uso não controlado do paracetamol ao longo da gravidez. E ainda, apontou quais os potenciais efeitos para o desenvolvimento fetal e para a vida extra uterina.

O trabalho é resultado de um conjunto de revisões sistemáticas coordenadas por 91 cientistas e alguns especialistas como: obstetras e ginecologistas, epidemiologistas e toxicologistas da Europa e dos Estados Unidos.

O paracetamol é um dos medicamentos mais utilizados em todo mundo. Observando somente as gestantes, de acordo com o pubmed, mais 50% delas faz uso do fármaco. Isso se dá, também, porque o uso de anti-inflamatórios não hormonais é contra-indicado, então, o paracetamol passa a ser a droga de escolha.

O paracetamol modifica o funcionamento do sistema endócrino e desencadeia complicações urogenitais e reprodutivas. Foto: Reprodução/AdobeStock
O paracetamol modifica o funcionamento do sistema endócrino e desencadeia complicações urogenitais e reprodutivas. Foto: Reprodução/AdobeStock

Já é sabido que a overdose intencional ou não e o uso crônico da droga causa danos ao fígado de adultos e crianças, mas até agora não se sabia quais as consequências diretas da sua utilização indiscriminada em gestantes.

Os cientistas observaram que a maioria das grávidas utilizaram o paracetamol sem uma forte indicação ou em situações em que sua eficácia é limitada (dores crônicas, lombalgias, dores de joelho, enxaquecas). Ademais, elas acreditam que ele e os antibióticos oferecem mais benefícios do que riscos.

Como foi feito o estudo?

Os pesquisadores se dividiram em 13 grupos e buscaram por arquivos publicados no Pubmed entre 1 de janeiro de 1995 e 25 de outubro de 2020, incluindo revisões sistemáticas e estudos observacionais. Dessa maneira chegaram às conclusões que veremos agora.

Conclusões sobre o uso de paracetamol em gestantes

Altera a função normal do sistema endócrino

O paracetamol mexe com o metabolismo, ele altera a função normal do sistema endócrino. Isso por si só já pode ser preocupante, pois fármacos deste tipo interferem na atividade endógena de hormônios imprescindíveis para o desenvolvimento de sistemas como o neurológico, reprodutor e urogenital.

Sua função analgésica inibe a sinalização de prostaglandina agindo como pró-droga com metabólitos analgésicos, em estudos experimentais, ativando receptores serotoninérgicos, opioides, vanilóides e canabinoides (todos de forma nociva para o SNC).

Ele também pode romper a barreira hemato-encefálica, cruzando a placenta. O metabolismo do medicamento no período gravídico é diferente. Isso porque um metabólito oxidativo (N-acetil-p- benzoquinona) é produzido em maior quantidade, tornando a mãe e o feto mais vulneráveis ao efeito tóxico.

Além disso, inúmeros estudos (in vivo, in vitro e ex vivo) mostraram que a droga foi capaz de causar a inibição de andrógenos e de aumentar a produção de estrógenos. E mais, ela foi responsável pela perturbação da função imune, ativação indireta do sistema endocanabinoide e pela indução do estresse oxidativo.

E não para por aí, os trabalhos também mostraram que o paracetamol foi capaz de promover a ruptura da esteroidogênese e a diminuição de hormônios sexuais sulfatados.

Consequências urogenitais e reprodutivas

11 estudos observacionais em 6 coortes, que incluíram mais de 130 mil pares de mães e filhos de diferentes partes do mundo, demonstraram que o analgésico causou criptorquidia (ausência de um ou dois testículos no saco escrotal) e redução da distância anogenital.

Estudos apontam que o paracetamol causou a criptorquidia em bebês. Foto: Reprodução/IUN - Urologia
Estudos apontam que o paracetamol causou a criptorquidia em bebês. Foto: Reprodução/IUN - Urologia

Outros 4 estudos apontaram que a exposição pré-natal ao medicamento está relacionada com o risco de hipospádia (abertura do pênis na parte inferior do órgão). Já um outro trabalho mostrou que esse mesmo tipo de exposição teve como consequência a puberdade precoce feminina.

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Consequências no desenvolvimento neurológico

A pesquisa divulgada na revista Nature também encontrou em 26 estudos observacionais de 14 coortes, que incluíram cerca de 220 mil pares de mães e filhos, situações clínicas causadas pelo uso do paracetamol durante o período gravídico. Elas estão listadas abaixo:

  • Déficit de atenção primária e hiperatividade;
  • Anomalias de comportamento;
  • Desordem do espectro autista;
  • Atraso de linguagem;
  • Diminuição de QI;
  • Paralisia cerebral;
  • Diminuição de função executiva;
  • Desordens de conduta.

Recomendações para o uso do paracetamol em gestantes

Diante das implicações demonstradas nos estudos, os pesquisadores fizeram as seguintes sugestões: 

  • O paracetamol só deve ser utilizado pelas gestantes por indicação médica, com a menor dose efetiva e por um curto período;
  • Os riscos são menores se a dose do medicamento for a menor efetiva, assim como o tempo de uso;
  • O uso prolongado ou em altas doses devem ser limitado;
  • As sociedades de obstetrícia e ginecologia devem reavaliar todos os dados epidemiológicos e de estudos experimentais e informar aos pacientes e aos provedores de saúde sobre os riscos relativos à utilização descomedida e sem orientação médica do paracetamol;
  • Os fabricantes de medicamentos combinados com o paracetamol ou somente do paracetamol devem fazer o alerta na embalagem para o uso cauteloso durante a gravidez.
  • O trabalho realizado pelos cientistas dos Estados Unidos e da Europa é de extrema importância. Isso porque, as consequências causadas pelo uso indiscriminado do paracetamol impactam diretamente na saúde pública. E saber que o medicamento está por trás de todas essa situações clínicas pode evitar várias morbidades.

Fontes: