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Publicado em
1/11/23

Bronquiolite viral aguda: o que é, sinais e sintomas e tratamento

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Bronquiolite viral aguda: o que é, sinais e sintomas e tratamento

A bronquiolite viral aguda é a principal causa de hospitalização de crianças até 2 anos de vida, tendo seu pico de incidência em lactentes de 2 a 6 meses. A inflamação provocada pela doença, que atinge o trato respiratório inferior, é precedida de crepitações e/ou sibilos. Assim, a doença é definida como o primeiro episódio de sibilo na criança menor de 2 anos, que tem evidências de infecção viral no trato respiratório sem nenhuma outra explicação para o aparecimento do sibilo.

O que é bronquiolite viral aguda?

A bronquiolite viral aguda é caracterizada por uma inflamação dos brônquios de origem viral, causando inflamação das pequenas vias aéreas e obstrução intraluminal variável, sendo muitas vezes entendida como “o resfriado que desce”. É caracterizado por episódio de sibilância em pacientes com menos de 12 meses.

A incidência da BVA no 1º ano de vida é de 11%, caindo para cerca de 6% durante o 2º ano de vida. O pico de incidência ocorre entre 2 e 5 meses de idade. Nas crianças menores de 1 ano, o risco de hospitalização pela doença é de aproximadamente 2%.

O que causa bronquiolite viral aguda?

O principal agente etiológico responsável pela doença é o VSR (Vírus Sincicial Respiratório), que é um vírus sazonal e, em países tropicais como o Brasil, tem aumento do número de casos em épocas chuvosas e frias. A principal fonte de transmissão do vírus é por outro membro da família, na creche ou escola, e se dá através do contato direto com gotículas ou fômites. 

O período de disseminação do vírus varia entre 3 e 8 dias, mas em lactentes mais jovens pode durar de 3 a 4 semanas. O contato primário com o vírus não vai dar ao indivíduo imunidade completa, portanto, as reinfecções são comuns ao longo da vida, mas tem menor impacto nas crianças mais velhas. Outros vírus também podem causar a bronquiolite aguda, como o rinovírus, parainfluenza, influenza, metapneumovírus, adenovírus, enterovírus e coronavírus.

Fisiopatologia

A bronquiolite viral aguda é causada por uma infecção nas células epiteliais dos bronquíolos terminais, causando inflamação. Células polimorfonucleares e macrófagos vão migrar para combater a infecção e provocar edema, secreção de muco e descamação celular, contribuindo para obstrução das vias aéreas e atelectasias. 

Além disso, a inflamação vai provocar a contração do músculo liso, contribuindo também para a obstrução através da broncoconstrição. O calibre das vias aéreas do lactente é ainda muito estreito, a superfície de troca gasosa ainda não está plenamente desenvolvida e o mecanismo imunológico é pouco desenvolvido nos bebês, o que contribui para o quadro.

Ilustração da diminuição do calibre dos bronquíolos durante o processo inflamatório. Fonte: Tua saúde link:  https://www.tuasaude.com/bronquiolite/
Ilustração da diminuição do calibre dos bronquíolos durante o processo inflamatório. Fonte: Tua saúde

Fatores de risco

Até os 2 anos de idade, é estimado que toda criança tenha tido contato com pelo menos um dos agentes etiológicos causadores da bronquiolite. As crianças com maiores predisposição a desenvolver a doença possuem fatores de risco como:

  • Prematuridade
  • Baixo peso ao nascer; 
  • Doença pulmonar crônica; 
  • Anomalias anatômicas do trato respiratório; 
  • Doenças cardíacas congênitas; 
  • Imunodeficiência;
  • Doença neurológica;
  • Convivência com muitas pessoas no domicílio; 
  • Irmãos mais velhos 
  • Ser fumante passivo

Crianças que possuem 1 a 3 meses de idade estão na faixa etária com maior predisposição para o surgimento de sintomas graves da doença.

Sinais e sintomas da bronquiolite

Os principais sintomas que a criança com bronquiolite viral aguda vai apresentar são febre (entretanto, sua ausência não exclui diagnóstico), tosse seca (que persiste após melhora do quadro), sibilância e dificuldades respiratórias (taquipnéia, sibilos, crepitações, tempo de expiração prolongado, tiragens intercostais e subcostais, retração de fúrcula e batimento de asa de nariz). A taquipnéia é um sintoma importante e que indica infecção no trato respiratório inferior. 

0 1 2 3 4
Sibilância
Expiração Não Final 1/2 3/4 Total
Inspiração Não Parcial Toda
Localização Não Segmentar Difusa
Retrações
Supraclavicular Não Leve Moderada Marcada
Intercostal Não Leve Moderada Marcada
Subcostal Não Leve Moderada Marcada
Tabela para auxílio de avaliação do desconforto respiratório. Fonte: Edisciplinas USP

A história natural da doença se dá com um início de infecção das vias aéreas superiores (como rinorreia), tosse e febre baixa, evoluindo para o aparecimento de sintomas nas vias aéreas inferiores em 2 a 3 dias (dificuldade respiratória, obstrução brônquica e sibilos). A piora ocorre entre 3 e 5 dias e, após esse período, o paciente vai gradativamente apresentando melhora clínica. 

É importante enfatizar que a bronquiolite viral aguda tem um quadro autolimitado, e a duração da doença vai depender da idade do paciente, da severidade do quadro e dos fatores de risco. Crianças que não precisam de hospitalização normalmente se recuperam em um período de aproximadamente 28 dias. 

Em crianças menores de 6 meses (particularmente, em crianças menores que 12 semanas) e com outras comorbidades, a bronquiolite viral aguda pode persistir por mais tempo, podendo ser necessário uso de ventilação mecânica. A cianose é indicativa de hipóxia, e indica gravidade.

Leve Moderada Grave
Alimentação Normal Menos que o normal Não aceita
Frequência respiratória <2 meses: > 60 irpm>2 meses: >50 irpm >60 irpm >70 irpm
Tiragem Leve Moderada Grave
Batimento de asa de nariz / gemência Ausente Ausente Presente
Sat 02 >92 % 88 a 92% < 88%
Comportamento Normal Irritável Letárgico
Tabela para auxílio da avaliação da gravidade na bronquiolite. Fonte: Adaptação da tabela do medscape

Diagnóstico

O diagnóstico da doença é clínico, assim, conhecer os sintomas e a história natural da doença é fundamental. Os exames de imagem não são necessários nem indicados para avaliar a bronquiolite, mas podem ser úteis em casos graves (piora súbita do quadro respiratório, doenças cardiopulmonares prévias), em que é preciso excluir outros possíveis diagnósticos diferenciais. A radiografia de tórax pode mostrar um quadro de atelectasia, infiltrado peribrônico e hiperinsuflação pulmonar. Da mesma forma, exames laboratoriais não têm indicação de rotina.

Radiografia de tórax de um lactente com sinais de hiperinsuflação pulmonar, sugestivo de bronquiolite viral aguda. Fonte: Edisciplina USP
Radiografia de tórax de um lactente com sinais de hiperinsuflação pulmonar, sugestivo de bronquiolite viral aguda. Fonte: Edisciplina USP

Saiba Mais:

Como tratar a bronquiolite viral aguda?

O tratamento deve ser feito procurando deixar a criança calma (agitação e choro podem provocar piora do quadro respiratório). Se a criança apresentar hipertermia, é preciso ser tratada. A obstrução nasal e rinorreia devem ser tratados com lavagem nasal para melhora do desconforto respiratório e para evitar o comprometimento da mecânica ventilatória em crianças muito pequenas. 

O uso de oxigênio precisa ser considerado, e deve ser administrado preferencialmente por uma cânula nasal. É necessário o monitoramento da saturação através da oximetria de pulso, visando manter em níveis superiores a 90%

Corticoides e antibióticos não são recomendados para tratar crianças com bronquiolite viral aguda, e os broncodilatadores, apesar de serem bastante utilizados, precisam de evidências científicas para sustentar seus benefícios no tratamento. O uso de soluções salinas hipertônicas tem o objetivo de aumentar o clearance mucociliar do paciente, e são recomendadas.

Medidas de prevenção, através da imunização passiva, são efetivas para proteger populações de risco: a imunoglobulina endovenosa específica (IGEV-VSR) e o anticorpo monoclonal humanizado para VSR (palivizumabe) são utilizados para prevenção da infecção por VSR. 

O palivizumabe é indicado para pacientes pediátricos com maiores riscos para desenvolver a doença grave ao contrair o vírus sincicial respiratório: crianças prematuras, portadoras de displasia broncopulmonar sintomática e cardiopatia congênita hemodinamicamente significativa em menores de dois anos de idade.

Complicações

Na maioria das crianças previamente hígidas, não há complicações para a bronquiolite viral aguda. Entretanto, em crianças menores de 3 meses, com doenças cardiopulmonares prévias e imunodeficiência, o risco de complicações se torna maior. As crianças com indicação de internamento são aquelas com desconforto respiratório moderado ou grave, apneia, hipoxemia, lactentes jovens, comorbidades, vulnerabilidade social e toxemia.

As complicações mais sérias são a apneia (principalmente em menores de dois meses e prematuros) e a parada respiratória. A necessidade de utilização da ventilação mecânica (como por exemplo, em caso de parada respiratória) pode provocar pneumomediastino e pneumotórax.

Outras complicações podem ser a pneumonia aspirativa e a hipoxemia. A desidratação também é uma complicação que pode ocorrer devido ao aumento da necessidade da ingesta líquida, justificado pela febre e taquipneia. 

Entretanto, também por causa da taquipneia (frequência respiratória elevada associada a obstrução nasal aumenta o risco de aspiração para o trato respiratório) e da dificuldade respiratória (que pode ser associada a vômitos) há possibilidade da criança não ser capaz de se hidratar sozinha. 

Nesses casos, pode ser preciso fazer a reposição de líquidos por via parenteral ou por sonda, para diminuir os riscos de broncoaspiração. É importante fazer a monitorização da ingesta líquida e do débito urinário da criança.

Uma vez que a doença tem um quadro autolimitado, a evolução é benigna e a criança normalmente não precisa de nenhuma intervenção. A necessidade de internação ocorre em aproximadamente de 1% a 2% dos casos, quando há dificuldade respiratória acentuada e outros fatores de risco associados.

Conclusão

A bronquiolite viral aguda é uma inflamação dos brônquios de origem viral, causando obstrução intraluminal variável, geralmente causada pelo VSR. Os principais sintomas são febre, tosse seca, sibilância, taquipneia, crepitações, tempo de expiração prolongado e sinais de desconforto respiratório. O tratamento é feito por meio de lavagem nasal, uso de oxigênio se necessário e de soluções salinas hipertônicas.

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