Estudo

Aprenda de uma vez: tratos e fascículos da medula

Os tratos e fascículos da medula são feixes de fibras nervosas com aproximadamente a mesma origem, função e destino. Reconhecer essas funções é fundamental para se ter ideia de qual região medular foi lesada.

Isso porque, em processos patológicos, diferentes locais da medula podem ser acometidos. Por isso, não perca mais um post para contribuir com a sua formação. Dessa vez, o tema é um assunto desafiador, mas imprescindível na prática médica: a anatomia dos tratos e fascículos.


Neuroanatomia dos tratos e fascículos da medula. Fonte: Liga Acadêmica de Anatomia Clínica e Cirúrgica (https://lanacmg.wixsite.com/lanac/post/s%C3%ADndrome-de-brown-s%C3%A9quard)

Os tratos podem ser divididos em vias ascendentes e descendentes, como ilustrado na imagem anterior.

Tratos e fascículos das vias descendentes

As vias descendentes têm origem no córtex ou tronco encefálico, e terminação na medula. Seu contingente são as fibras motoras somáticas, ou seja, têm função da inervação efetora (motora) voluntária dos músculos esqueléticos.

Essas vias eram antigamente classificadas em sistemas piramidal e extrapiramidal. Entretanto, atualmente, são denominadas de sistemas lateral e medial (anteromedial).

Sendo o sistema lateral composto pelo trato corticoespinhal lateral e o trato rubroespinhal.

Qual a função do trato corticoespinhal lateral?

O trato corticoespinhal lateral, com origem no córtex e terminação no funículo lateral da medula, é formado por fibras que cruzam a decussação das pirâmides. Assim, fibras com origem do lado esquerdo no córtex cruzam para o lado direito da medula, por exemplo.

Como visto anteriormente, esse trato tem função motora somática e, devido ao cruzamento das fibras, o córtex de um hemisfério cerebral comanda os neurônios motores situados no lado oposto da medula.

É por isso que uma lesão no trato corticoespinhal, acima da decussação das pirâmides, causa danos que podem ser evidenciados no lado oposto do corpo.

Entretanto, um pequeno número de fibras não cruza na decussação das pirâmides. Essas formam o trato corticoespinhal anterior, que está localizado no sistema medial. Observe a imagem abaixo.

Visualização do trajeto do trato corticoespinhal lateral e corticoespinhal anterior.

Qual a função do trato rubroespinhal?

O trato rubroespinhal tem origem no núcleo rubro do mesencéfalo. Tem função de controlar a parte distal dos membros: os músculos intrínsecos e extrínsecos das mãos e dos pés. 

O trato corticoespinhal também controla a musculatura distal dos membros. Entretanto, durante a evolução, houve uma diminuição do trato rubroespinhal e aumento do trato corticoespinhal.

No paciente que apresentou um acidente vascular cerebral (AVC), é possível haver dano do trato corticoespinhal de um hemicorpo. A lesão desse trato pode intensificar a atividade do trato rubroespinhal, provocando a postura de Wernicke-Mann. 

Sendo essa caracterizada pela extensão e inversão dos membros inferiores e pela flexão e pronação dos membros superiores do lado lesado. Observe a imagem abaixo.

Postura de Wenicke-Mann. Fonte: Neuroinformação (http://neuroinformacao.blogspot.com/2012/02/o-uso-de-toxina-botulinica-apos-um-avc.html)

Já o sistema medial apresenta os seguintes tratos: o corticoespinhal anterior (visto anteriormente), o trato teto-espinhal e o trato vestibuloespinhal

E mais, o trato reticuloespinhal pontino e o reticuloespinhal bulbar. Eles controlam a musculatura axial (do tronco e pescoço) e a musculatura proximal dos membros.

Qual a função do trato vestibuloespinhal?

O trato vestibuloespinhal tem origem nos núcleos vestibulares, localizados na área vestibular do IV ventrículo. São importantes para a manutenção do equilíbrio e da postura básica.

Qual a função dos tratos reticuloespinhais?

O trato reticuloespinhal pontinho tem origem na formação reticular da ponte. E o trato reticuloespinhal bulbar, na formação reticular do bulbo.

Ambos os tratos têm função, assim como o trato vestibuloespinhal, da manutenção do equilíbrio e da postura básica. Entretanto, controlam também a motricidade voluntária da musculatura axial e proximal.

Sendo o trato reticuloespinhal pontinho fundamental para a contração da musculatura extensora dos membros inferiores. E isso é imprescindível para a manutenção da postura ereta do corpo e para resistir à ação da gravidade. E mais, promove estabilidade no corpo para a realização de movimentos com o membro superior.

Já o trato reticuloespinhal bulbar tem ação oposta. Promovendo o relaxamento dos músculos extensores dos membros inferiores.

Qual a função do trato teto-espinhal?

O trato teto-espinhal tem origem no teto do mesencéfalo, mais especificamente, no colículo superior. Apresenta funções de realizar reflexos decorrentes de estímulos visuais, como a midríase (aumento do diâmetro pupilar).

Qual a função do trato corticoespinhal anterior?

O trato corticoespinhal anterior possui bem menos fibras que o corticoespinhal lateral. Sua função é igual ao do trato corticoespinhal lateral, atuando na motricidade voluntária do corpo.

Vias ascendentes

As fibras que formam a via ascendente relacionam-se a fibras que penetram a região dorsal do nervo espinhal. Dessa forma, trazem impulsos aferentes (sensitivos) de várias regiões do corpo

As fibras que ocupam o funículo posterior da medula são os fascículos grácil e cuneiforme, que terminam nos tubérculos grácil e cuneiforme do bulbo. 

Representação dos tubérculos e fascículos grácil e cuneiforme. Fonte: Metabolismo e Morfofisiologia (http://metabolismoemorfofisiologia.blogspot.com/2014/11/fasciculo-e-tuberculo-gracil-e.html)

Já no funículo anterior da medula, localiza-se o trato espinotalâmico anterior. E no funículo lateral, o trato espinotalâmico lateral, espino-cerebelar anterior e posterior.

Qual a função dos fascículos grácil e cuneiforme?

O fascículo grácil e cuneiforme são prolongamentos centrais de neurônios sensitivos situados nos gânglios espinhais.

O fascículo grácil tem função de conduzir impulsos originados dos membros inferiores e da metade inferior do tronco. Estando localizado em toda a extensão da medula.

Já o fascículo cuneiforme conduz impulsos originados dos membros superiores e da metade superior do tronco. Estando localizado apenas a partir da região torácica superior.

Apesar dessas particularidades, ambos os fascículos apresentam as mesmas funções. Dessa forma, conduzem impulsos relacionados à cinestesia (propriocepção consciente), tato epicrítico, que permite a discriminação de dois pontos.

Discriminador de dois pontos, instrumento que pode ser utilizado na avaliação da sensibilidade epicrítica. Fonte: PT Medical (https://www.ptmedical.pt/sindrome-tunel-carpico/)

Para mais, também possibilitam a sensibilidade vibratória, que normalmente representa o sinal mais precoce de lesão do funículo posterior. E ainda, a estereognosia. Sendo essa última a capacidade de descrever com as mãos (de olhos fechados) a forma e o tamanho de um objeto.

Qual a função do trato espinotalâmico anterior?

O trato espinotalâmico anterior conduz as fibras até o tálamo. Tem função de conduzir impulsos de pressão e tato protopático. Sendo esse último o tato leve, pouco discriminativo, de receptores localizados na epiderme e derme.

Qual a função do trato espinotalâmico lateral?

O trato espinotalâmico lateral, assim como o espinotalâmico anterior, conduz suas fibras até o tálamo. É a principal via de transmissão de impulsos de temperatura e dores agudas e bem localizadas.

Junto a esse trato, existem as fibras reticulotalâmicas, que também levam impulsos dolorosos ao tálamo. Essas formam a via espino-retículo-talâmica, e conduzem impulsos de dor tipo crônica e difusa (dor em queimação) até o cérebro.

Qual a função do trato espino-cerebelar anterior e posterior?

O trato espino-cerebelar anterior conduz suas fibras até o pedúnculo cerebelar superior. Já o trato espino-cerebelar posterior conduz suas fibras até o pedúnculo cerebelar inferior.

Ambos os tratos têm função de propriocepção inconsciente. Entretanto, o trato espino-cerebelar anterior também tem função de controle da motricidade somática, visto que realiza detecção dos níveis de atividade corticoespinhal.

FONTE: MACHADO, A., HAERTEL, L. M. Neuroanatomia Funcional. 3a edição. Editora Atheneu, 2014.