Mentalidade

Balanceando compreensão e memorização

Em nossa última conversa, falamos a respeito do mito acerca da memorização e de como ela é colocada como a vilã da boa prática do estudo. Discutimos como ela pode ser crucial e até mais importante do que a compreensão em certos temas. Mas, no geral, o estudo otimizado deve balancear ambos, compreensão e memorização.

Então hoje falaremos sobre o mapa mental — um modelo geral que pode ser adaptado conforme o assunto em questão — do estudo. Você conhece aquela velha história do pote com pedras, areia e água? Simplificando, o mapa é aquilo. Se a areia ou a água forem colocadas no pote antes das pedras, as pedras não caberão. Se colocarmos primeiro as pedras, depois a areia e por último a água, o pote fica preenchido. Não falta espaço para nada. Nessa analogia, a compreensão dos conceitos fundamentais é representada pelas pedras. A areia e a água são as minúcias. Se memorizarmos todas as pequenas minúcias sem antes compreender profundamente os conceitos principais, faltará espaço para eles.

É preciso entender como nossa cabeça funciona. Nós temos grande dificuldade para decorar números soltos, sem contexto, por exemplo. Ocorre a exata mesma coisa com informações desconexas. O conhecimento precisa de um esqueleto, uma estrutura onde as peças possam ser fixadas. Portanto, se vamos aprender alguma coisa, é preciso antes buscar uma estrutura lógica onde poderemos “pendurar” as informações necessárias.

Voltemos, agora, à diferença entre os diversos assuntos que estudamos na medicina. Como exemplificado na conversa anterior, temas como anatomia e fisiologia requerem aproximações muito diferentes. No caso da fisiologia (ou cardiologia, nefrologia, pneumologia etc.) a compreensão conceitual é muito mais importante do que a memorização. Sendo assim, o aluno se beneficiaria muito mais com aplicação do conhecimento adquirido — na forma de resolução de questões e criação de modelos gráficos, por exemplo — do que da repetição espaçada (método mnemônico que abordaremos nos próximos textos) ou leitura de flashcards. No caso da anatomia, o contrário se aplicaria.

Na grande maioria dos assuntos, porém, a combinação de ambos funciona perfeitamente. Primeiro entendemos o que há para ser entendido e solidificamos essa compreensão com aplicação prática. Uma vez que os grandes conceitos estão bem fixados na memória e podem sem aplicados sem dificuldades, vamos às minúcias. E aí brilham métodos como a repetição espaçada, os flashcards, o active recalling (mais um a ser abordado num futuro breve).

Como médicos e estudantes de medicina, temos uma quantidade de informações quase sobre-humana para ser memorizada ao longo de nossas vidas — sim, vidas, porque um médico que parou de estudar é um médico que parou no tempo. Seja na faculdade, na residência ou na prática médica, novas informações e mudanças de protocolo estão surgindo o tempo todo. Dessa forma, compreensão conceitual profunda e métodos mnemônicos não são apenas ferramentas que usaremos para passar na prova de residência. São ferramentas que deverão ser estendidas a toda uma carreira.

Leia esse outro artigo da Fernanda Ferrairo no nosso blog sobre memorização!