Covid-19

Suporte ao paciente após COVID-19

Até a data de fechamento desta matéria o Brasil já havia ultrapassado a marca de 110 mil mortes causadas pela doença, sendo registradas quase 800 mil em todo o mundo. Com uma taxa de recuperação acima dos 90%, dúvidas quanto ao acompanhamento de tais pacientes são comuns, haja visto que os acometidos após fase aguda podem desenvolver complicações graves, como as tromboembólicas, e outros podem se estabelecer com um quadro clínico não muito específico, dominado por fadiga e dispneia.

O jornal científico The British Medical Journal divulgou um artigo orientando profissionais da saúde, especialmente os envolvidos com a atenção primária, a prestarem suporte otimizado no acompanhamento de tais pacientes.

Na publicação, foi estabelecido que manifestações clínicas persistentes após três semanas de seu início são características de COVID-19 pós-aguda e após 12 semanas pode ser definida como crônica. Os sintomas pós-agudos de covid-19 variam amplamente. Mesmo os chamados COVID19 suaves podem estar associados a sintomas de longo prazo, dominados por tosse e fadiga. No entanto, outros sintomas relatados incluem dispneia, dor no peito, cefaleia, dificuldades neurocognitivas, mialgias, fraqueza, distúrbios gastrointestinais, erupções cutâneas, distúrbios tromboembólicos, metabólicos, depressão e outras condições de saúde mental.

Depois de excluir complicações ou comorbidades graves em curso, e até que os resultados dos estudos de acompanhamento de longo prazo estejam disponíveis, os pacientes devem ser tratados com ênfase no suporte holístico, evitando investigações excessivas. O encaminhamento para um serviço de reabilitação especializado não parece ser necessário para a maioria dos pacientes, pois maioria se recupera bem com 4-6 semanas de exercícios aeróbicos leves, aumentando gradualmente de intensidade conforme tolerado.

Tosse

A tosse crônica foi definida como aquela que persiste além de 8 semanas. Até esse momento, e a menos que haja sinais de infecção ou outras complicações, como dor pleurítica, a tosse parece ser bem tratada com exercícios de controle respiratório, sendo melhor suportada pela equipe de fisioterapia respiratória, e medicação quando indicada, como inibidores da bomba de prótons, se houver suspeita de refluxo.

Dispneia

Um grau de falta de ar é comum após COVID-19, sendo, nas primeiras seis semanas, comum a maioria dos pacientes ainda estarem em reabilitação pulmonar. No entanto, dispneia importante, apesar de rara em pacientes que não foram hospitalizados, pode necessitar de avaliação mais detalhada por especialista. A falta de ar leve, assim como a tosse, também tende a melhorar com a prática de exercícios respiratórios. Oxímetros de pulso podem ser úteis para avaliar e monitorar sintomas respiratórios após COVID-19, não sendo encontradas evidências de que sua utilização em domicílio possa aumentar níveis de ansiedade.

Fadiga

A fadiga prolongada em alguns casos pós-agudos pacientes COVID-19 compartilha características com a síndrome da fadiga crônica descrita após outras infecções graves, como SARS, MERS e pneumonia. Até o determinado momento não há nenhuma publicação com evidências sobre a eficácia no uso de medicamentos ou intervenções não farmacológicas na fadiga após COVID-19. Há muito debate e controvérsia sobre o papel dos exercícios físicos para a melhoria da fadiga crônica. Pela falta de evidências diretas, foi sugerido que o exercício deve ser realizado com cautela e desaconselhado se o paciente desenvolver febre, dispneia, fadiga severa ou mialgias.

Tromboembolismo

A COVID-19 gera um estado de inflamação e hipercoagulação, ainda não elucidado por quanto tempo, com consequente aumento do risco de eventos tromboembólicos. Muitos pacientes que necessitam de hospitalização recebem anticoagulação profilática. Recomendações para anticoagulação após a alta variam, mas os pacientes de maior risco normalmente recebem alta hospitalar com dez dias de extensão da tromboprofilaxia. Se o paciente foi diagnosticado com um episódio trombótico, anticoagulação e investigação adicionais devem seguir as diretrizes vigentes.

Disfunção ventricular

Disfunção sistólica ventricular esquerda e insuficiência cardíaca após COVID-19 podem ser gerenciadas de acordo com as diretrizes já existentes. Exercícios cardiovasculares intensos devem ser evitados por três meses para todo paciente que desenvolveu miocardite ou pericardite; atletas devem ser aconselhados a 3-6 meses de descanso completo do sistema
cardiovascular seguido de acompanhamento especializado, com retorno ao esporte guiado por estado funcional, biomarcadores, ausência de arritmias e evidência de função sistólica ventricular esquerda normal.

Sequelas neurológicas

As sequelas neurológicas, como AVC isquêmico, convulsões, encefalite e neuropatias foram descritas após COVID-19, mas todas parecem ser raras. Na suspeita dessas complicações, avaliação de neurologista se faz necessária.

Pacientes idosos

A COVID-19 tende a afetar com maior gravidade pacientes mais idosos. Após fase aguda tal grupo se encontra em alto risco para o desenvolvimento de sarcopenia, desnutrição, depressão, delírio e dor crônica. O suporte a esse grupo deve ser mais personalizado, com participação intensa da equipe multiprofissional, com equipe médica, enfermagem, nutrição, terapia ocupacional e fisioterapia.

A pandemia da COVID-19 nos trouxe diversos desafios. Cuidar da população mundial, neste momento, demanda de esforços para a garantia de um suporte de qualidade e que possa promover o melhor acompanhamento possível à luz dos conhecimentos científicos atuais. No cuidado ao paciente, pode-se perceber a clara necessidade da interação e do correto estabelecimento das equipes multiprofissionais, capazes de gerar impactos positivos sob o acompanhamento especializado e individualizado dos pacientes, promovendo um acompanhamento mais holístico.