Estudo

Probióticos na prevenção de recorrência de vaginose bacteriana?

Os probióticos, microorganismos vivos, têm tido, cada vez mais, espaço garantido nas prescrições médicas. Podem ser encontrados em diversas formas, como formulações farmacêuticas, alimentos derivados do leite e fermentados, como o iogurte. Seu uso é bastante associado à indução de uma microbiota intestinal mais benéfica ao paciente. No entanto, pesquisas têm procurado elucidar os possíveis benefícios em outras áreas da medicina, como em pesquisa recente, divulgada pelo jornal científico New England, em maio de 2020. No estudo foi possível estabelecer uma relação entre a complementariedade do tratamento convencional com a utilização de aplicações de probióticos vaginais e a posterior diminuição da recorrência de vaginose bacteriana.

O que é vaginose bacteriana?

A vaginose bacteriana é um conjunto de sinais e sintomas que se desenvolvem a partir do desequilíbrio da flora vaginal, culminando no crescimento polimicrobiano de bactérias anaeróbias estritas e facultativas. A manutenção da homeostase da mucosa no trato feminino é fundamental para impedir a proliferação desses agentes patogênicos.

Na promoção dessa homeostase existe um ecossistema vaginal capaz de evitar a instalação de tal desequilíbrio. Dentre os mecanismos utilizados há o mucocervical, a acidez vaginal (Ph entre 4-4,5), a integridade anatômica e os lactobacilos. Tais micro-organismos possuem importantes funções, produzindo ácidos orgânicos, peróxido de hidrogênio e bacteriocinas, além de competir com os patógenos por nutrientes e receptores, inibindo seu crescimento.

O equilíbrio desse ecossistema é constantemente desafiado por fatores endógenos e exógenos. Quando esses mecanismos de proteção são vencidos, há o desenvolvimento de uma reação inflamatória local na vulva e na vagina, com liberação de citocinas e prostaglandinas. Tal desequilíbrio pode gerar sintomas como aumento do conteúdo vaginal e de odor fétido, devido
à volatização de aminas, como cadaverina e putrescina.

Como diagnosticar e tratar vaginose bacteriana?

Desde 1983 o diagnóstico da vaginose é possível a partir da utilização dos critérios clínicos de Amsel, que se baseiam na presença de três dos quatro critérios propostos - Tabela 1. Outro método diagnóstico é o escore de Nugent, que consiste na contagem em esfregaço, corado pelo método de Gram, de morfotipos bacterianos de lactobacilos, Gardnerella vaginalis e Mobiluncus sp.– Tabela 2.

O objetivo terapêutico é o alívio dos sintomas vaginais, havendo também redução no risco de adquirir alguma infecção sexualmente transmissível. Pode ser realizado o tratamento a partir da aplicação tópica com metronidazol gel ou clindamicina creme, bem como também é possível o
tratamento por via oral com metronidazol. Apesar do tratamento adequado e boa adesão do paciente, é possível observar que em 50% das pacientes há recorrência dos sintomas. Também é importante lembrar que, nessa afecção, o(a) parceiro(a) não precisa realizar tratamento.

Probióticos
Probióticos

O que foi publicado no jornal científico New England?

Um estudo multicêntrico, duplo-cego randomizado (randomização realizada por software), placebo controlado, fase 2B, foi desenvolvido, de abril de 2016 até fevereiro de 2019, para analisar a eficácia na prevenção de recorrência da vaginose bacteriana, a partir da utilização do Lactobacillus crispatus CTV-05 por 11 semanas em mulheres entre 18-45 anos que receberam diagnóstico de vaginose bacteriana e foram adequadamente tratadas, com acompanhamento por mais 24 semanas.

Após estabelecimento dos critérios de elegibilidade (Amsel e Nugent), 228 mulheres foram elegidas para randomização, sendo, dessas, 152 alocadas no grupo para utilização de CTV-05 e 76 para o grupo do placebo. Após seguimento por 24 semanas, com consultas periódicas e quantificação dos níveis de L. crispatus na flora vaginal, foi possível observar que as mulheres que utilizaram CTV-05 obtiveram uma taxa de recorrência da vaginose de 30%, enquanto que as mulheres que fizeram uso do placebo recorreram em 45% até a 12ª semana de avaliação (CI 0,44 – 0,87; P=0,01). Entre os pacientes sem recorrência conhecida até a 12ª semana, um total
de 12% no grupo CTV-05 e 17% no grupo placebo tiveram recorrência até a 24ª semana, no entanto, sem significância estatística (CI 0,54 – 0,92; P=0,92). Até o seguimento da 24ª semana não foi possível observar efeitos adversos estatisticamente significativos decorrentes da utilização do CTV-05.

A partir dos dados expostos na pesquisa é possível inferir que a utilização do lactobacilo L. crispatus, após tratamento adequado com metronidazol vaginal, foi capaz de reduzir significativamente as taxas de incidência de recorrência de vaginose bacteriana nas primeiras 12 semanas, bem como seu benefício pareceu também persistir até 24ª semana.

Apesar do recente artigo publicado pela New England afirmar o benefício da utilização do tratamento combinado com metronidazol e probiótico, estudos prévios já o haviam feito. No entanto, em tais casos, foram realizados estudos com baixo espaço amostral, metodologias que
careciam de padronização para análise dos resultados, bem como não averiguação de possíveis efeitos adversos decorrentes da sua utilização. Logo, é possível sugerir que a utilização de L. crispatus, após tratamento com metronidazol em mulheres com histórico de vaginose bacteriana, se mostrou eficaz em reduzir a taxa de incidência de recorrência da vaginose
bacteriana.

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REFERÊNCIAS

  1. Cohen, C. R., Wierzbicki, M. R., French, A. L., Morris, S., Newmann, S., Reno, H., Hemmerling, A. (2020). Randomized Trial of Lactin-V to Prevent Recurrence of Bacterial Vaginosis. New England Journal of Medicine. 382(20), 1906–1915.
  2. Hemmerling A, Harrison W, Schroeder A, et al. Phase 2a study assessing colonization efficiency, safety, and acceptability of Lactobacillus crispatus CTV-05 in women with bacterial vaginosis. Sex Transm Dis 2010; 37:745-50
  3. ELEUTERIO JUNIOR, José; CAVALCANTE, Diane Isabelle Magno. Contagem de morfotipos de Mobiluncus sp e concentração de leucócitos em esfregaços vaginais de pacientes com vaginose bacteriana. Rev. Bras. Ginecol. Obstet, Rio de Janeiro, v. 26, n. 3, p. 221-225, Apr. 2004.