Estudo

Entendendo a produção de pesquisas científicas - parte 2

Continuando nossa conversa a respeito de pesquisas científicas, hoje veremos mais a fundo o mecanismo das pesquisas observacionais — que, em termos numéricos, constitui a área de maior produção científica no mundo.

Em primeiro lugar: o que é um estudo observacional? Em linhas gerais, é uma pesquisa que acompanha uma determinada população por um determinado intervalo de tempo, a fim de estabelecer correlações entre certos comportamentos e os resultados destes. Aqui, quando digo “comportamento", estou me referindo a qualquer fator que possa ser avaliado em um contexto científico: fatores de risco para uma doença, testes diagnósticos, procedimentos cirúrgicos; enfim, algo que possa estabelecer uma correlação com o resultado em que os pesquisadores estão focando.

Há dois grandes grupos de estudos observacionais: os analíticos e os descritivos. Os analíticos são em geral longitudinais (se estendem no tempo) e, por sua vez, se dividem em estudos de coorte e de caso-controle.

Uma coorte é qualquer grupo de pessoas que, de alguma forma, possuem vínculos. Por exemplo: uma coorte de nascimentos inclui todas as pessoas nascidas dentro de um determinado período. Os pesquisadores, ao longo do tempo, comparam o que acontece com os membros da coorte que foram expostos a uma variável específica com o que acontece com membros que não foram expostos. Nos estudos de caso-controle, pesquisadores identificam indivíduos com uma condição de saúde pré-existente (o “caso"), um grupo semelhante sem o problema (o "controle") e os comparam em relação a uma (ou mais) exposição a variáveis.

De todos os tipos de estudos observacionais, o descritivo é o mais simples. O melhor exemplo deste tipo de estudo, cujo nome se faz autoexplicativo, é o relato de caso. Não há hipótese a ser testada e, por ser um estudo observacional, naturalmente não há intervenção. O objetivo do estudo descritivo é simplesmente fazer um comentário a respeito da distribuição de variáveis.

Ok. Agora que sabemos um pouco mais a respeito do estudo observacional, como avaliar sua qualidade? Em que altura no “ranking" eles se colocam?

Como já dito, os RCTs são o padrão-ouro da ciência. Como também já dito, há diversos fatores impedindo que eles sejam realizados com mais frequência: fatores financeiros, éticos, temporais, entre outros. Dessa forma, os estudos observacionais ficam em segundo lugar na lista, mas nem todos são realizados da mesma maneira. O design importa. Muito.

As evidências de estudos prospectivos — tanto em coortes como caso-controle, ambos analíticos — são de melhor qualidade do que evidências coletadas em estudos retrospectivos. Estes últimos olham para o passado, como o nome já diz. Isso envolve a observação de grandes grupos de indivíduos e sua exposição aos fatores de risco de interesse (dos pesquisadores) para que se encontre associações com possíveis causas de doenças. Esse tipo de estudo dá margem a muitos vieses, uma vez que o “outcome of interest” (resultado que os pesquisadores esperam encontrar) já está lá desde o início.

Já nos estudos prospectivos, os participantes são recrutados e têm suas informações de base coletadas antes de desenvolverem qualquer possível outcome of interest, o que diminui consideravelmente a ação do viés de qualquer pesquisador.

Os descritivos ficariam em último lugar, já que fazem apenas um comentário, não possuem hipótese a ser testada.

É importante que mantenhamos em mente todo esse histórico quando estivermos com um paper em mãos. Especialmente agora, em tempos incertos, em que dezenas de estudos são publicados todos os dias. Devemos lembrar que nem toda evidência é criada igualmente e, quanto maior sua qualidade, mais próximos estaremos da verdade.

Leia esse outro artigo da Fernanda Ferrairo no nosso blog sobre a parte 1 desse artigo!