Estudo

Entendendo a produção de pesquisas científicas - parte 1

Conversamos na semana passada a respeito de passos para uma leitura mais eficaz. Dentro de um passo que versava sobre velocidade, mencionei como exemplo a leitura de um artigo científico. Disse que poderíamos compartimentalizá-la.

Como médicos, passaremos o resto de nossas carreiras lendo artigos científicos — ao menos se quisermos nos manter afiados. Devido a atual pandemia, nunca se falou tanto a respeito de artigos científicos na mídia quanto agora. É interessante notar, porém, que muitas pessoas não sabem interpretar um artigo, embora conheçam a terminologia e às vezes até estejam inseridas no meio acadêmico. Sem mais delongas, vamos então nos certificar de que estamos lendo corretamente o tipo de evidência que nos é apresentado.

A primeira coisa que devemos fazer é avaliar a qualidade da evidência. O padrão-ouro do estudo científico é o teste duplo-cego, randomizado e controlado por placebo — o estudo experimental. Logo abaixo vem o estudo prospectivo. Em terceiro lugar, o estudo retrospectivo. Em quarto, os relatos de caso ou série de casos. Esses três últimos são classificados como estudos observacionais (ou seja, não há experimento), dividindo-se em analíticos e descritivos. Há ainda meta-análises, revisões sistemáticas, opiniões de experts etc. Mas, para fins didáticos, ficaremos com esses quatro tipos principais.

Quais são os elementos da pesquisa que levam à formação desse “ranking" de qualidade? Qual deve ser o objetivo principal de uma pesquisa científica?

Em termos simples: encontrar a verdade através do estabelecimento de uma relação de causa e efeito. No experimento, que produz a evidência de melhor qualidade, conseguimos observar essa relação claramente. Por que, então, nem todas as evidências são produzidas através de experimentos, já que eles são o padrão-ouro?

Há muitos fatores envolvidos. O tempo médio de um experimento — o estudo padrão RCT (randomized controlled trial) — é de 5.5 anos, se contado a partir do recrutamento de participantes até sua publicação. Uma pesquisa patrocinada pelo instituto americano USNINDS (U. S. National Institute of Neurological Disorders and Stroke) constatou que foram gastos 335.000.000 dólares em seu conjunto de 28 RCTs. Ou seja: eles são muito longos e muito caros. Há também as implicações éticas. Uma pesquisa que tem o objetivo de descobrir os danos causados pelo tabagismo, por exemplo, não pode recrutar participantes e dar cigarros a metade do grupo. Seria antiético e causaria danos propositais a um grupo. Quando o estudo objetiva avaliar dano, e não benefício, um experimento desse tipo simplesmente não pode ser realizado.

Qual a alternativa, então? O estudos observacional.

Como citado anteriormente, estudos observacionais podem ser divididos em dois grandes grupos: analíticos e descritivos. Na nossa próxima conversa, falaremos um pouco mais sobre como a evidência é produzida nesse conjunto de estudos, focando primeiro no analítico — aquele que se propõe a avaliar uma possível associação entre causa e efeito através da observação. Em geral, eles são longitudinais (se estendem no tempo) e possuem dois subgrupos: coorte e caso-controle. Serão os temas abordados na semana que vem.

Nos vemos em breve. Até lá, bons estudos.

Leia esse outro artigo da Fernanda Ferrairo no nosso blog sobre conseguir uma leitura mais eficaz!