Covid-19

A pandemia e a desinformação

Caros colegas e futuros colegas,

Na conversa de hoje, faremos uma breve pausa na análise de novos estudos a respeito da Covid-19 para falar sobre um assunto importante, referente ao nosso papel não só como médicos, mas também como comunicadores científicos e divulgadores da boa ciência.

Creio que muitos de vocês, como eu, estejam recebendo mensagens com perguntas de familiares, amigos e conhecidos mais ou menos no seguinte formato:

“Recebi isso hoje pelo Whatsapp (ou e-mail, ou vi no Facebook, Instagram etc.). É verdade?”

e aí se segue um vídeo, áudio ou texto com informações absolutamente mentirosas. Desinformação pura. Um desserviço descomunal.

No curso de uma pandemia, o modo com que a população se comporta é um dos maiores definidores do desfecho da situação. Por mais bem preparado que um país seja em relação à saúde pública, número de hospitais e profissionais bem treinados, equipamentos e políticas públicas, se não houver a colaboração de todos, nossos esforços podem ser em vão. E em época de acesso praticamente universal à internet, o papel do comunicador científico nunca foi tão essencial.

O que fazer?

Há dezenas de estudos sendo publicados todos os dias. Não conseguimos nos manter a par de tudo, por mais que tentemos. Afinal de contas, há outras coisas a serem estudadas e muitos de nós trabalhamos — alguns no próprio front. E também não adianta enviar links do JAMA ou do NEJM pra quem não sabe interpretar um estudo científico, ou seja, a grande maioria da população. É por isso que vídeos e áudios com informações “bombásticas" a respeito da pandemia, alguns até com tons conspiratórios, se espalham tão fácil. Eles falam a língua do povo. Não usam termos técnicos e contam histórias pessoais, que sempre atraem facilmente a atenção. Eu e você sabemos que evidência anedótica não é ciência mas, quem não trabalha com ela, não.

Para tentar fazer pelo menos a nossa parte — pois o problema não será solucionado por completo, é impossível controlar um fluxo de informações imensurável — precisamos, em primeiro lugar, nos certificarmos de que nós mesmos não caiamos na armadilha da desinformação. Esse é o trabalho pesado. Analisar o nível de qualidade da informação que estamos consumindo para poder refutar mentiras com base científica.

Em segundo lugar, e isso é mais importante do que muitos julgam, usar linguagem acessível. Além de linguagem, mídias acessíveis. É muito mais provável que um áudio ou um vídeo seu (ou de um colega de profissão, de um professor) sejam mais compartilhados do que um texto de dezesseis parágrafos cheios de termos técnicos. Em terceiro: indicar para o maior número possível de pessoas fontes que possuem credibilidade. Como disse no parágrafo acima, nem todo mundo tem tempo para se manter a par do que está sendo publicado diariamente. Mas há pessoas cujo trabalho principal é justamente esse. Pessoas que trabalham somente com divulgação científica. Não custa nada, então, pedir para aquele seu amigo que está acompanhando a pandemia apenas pelo Whatsapp para que visite o site da OMS ou acompanhe a cobertura da Fiocruz. E que, pelo amor de todos os deuses, pare de repassar o que recebe sem antes fazer qualquer julgamento crítico.

Julgamento crítico é a expressão-chave aqui. Seja o divulgador da informação um profissional da saúde, como nós, ou não. Se cada um de nós, antes de repassar um texto, áudio ou vídeo questionarmos uma única vez “será que isso é verdade? Como e onde posso checar antes de passar (ou não) isso para frente?” já estaremos fazendo nosso papel. Não só de médicos e divulgadores da boa ciência, mas de cidadãos conscientes.

Confira nosso primeiro e segundo post da cobertura Covid-19