Estudo

Dieta ou by-pass gástrico para pacientes diabéticos?

A obesidade é uma complexa condição da saúde global, sendo influenciada por condições sociais biológicas e psicossociais, podendo afetar pessoas em qualquer faixa etária. No Brasil, uma a cada três pessoas já apresenta critérios para diagnosticar obesidade.

Diversas condições associadas à saúde podem ser precipitadas ou agravadas pela presença da obesidade, como diabetes, hepatite não alcoólica e distúrbios vasculares. Estudos recentes têm demonstrado que apenas o tratamento clínico com dieta, uso de medicamentos e exercícios físicos pode não ser suficiente para a redução dos níveis de obesidade na população.

O tratamento cirúrgico representa uma alternativa mais definitiva em relação ao tratamento clínico conservador. Com o aumento da demanda para esse tipo de procedimento diversas técnicas foram desenvolvidas e aprimoradas ao longo do tempo.

Basicamente existem três tipos (Tabela 1) de cirurgia bariátrica, as restritivas (que reduzem a capacidade de armazenamento do estômago), as disabsortivas (que impedem a completa absorção alimentar) e as técnicas mistas, que unem as duas anteriores.

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Um estudo de coorte foi realizado, entre novembro de 2014 até outubro de 2018, na Universidade de Washington e publicado em agosto na revista científica New England Journal. O estudo selecionou um total de 33 pacientes diagnosticados com obesidade e diabetes mellitus e os dividiu em dois grupos, um no qual foi realizado um tratamento baseado na mudança dietética e outro no qual a intervenção foi cirúrgica.

Onze pacientes foram selecionados para compor o grupo da dieta e outros onze foram para o grupo da cirurgia – onze pacientes foram excluídos das análises por não atingirem a meta de peso estabelecida ou por vontade própria.

Após a realização das intervenções, foi avaliado se o By-pass gástrico teria melhores efeitos terapêuticos em relação ao tratamento dietético por meio da análise da resposta metabólica à ingesta alimentar, monitorização da glicemia ao longo do dia, ácidos graxos livres, níveis séricos de insulina, sensibilidade orgânica à insulina e funcionalidade das células beta.

Foi percebido que, após perda de peso considerável, independente da natureza, cirúrgica ou conservadora, houve uma melhora expressiva na composição corporal. Massa gorda, nível de gordura visceral e triglicerídeos foram parâmetros que diminuíram em ambas estratégias.

O By-pass gástrico foi associado a alterações no padrão de resposta metabólica à ingesta alimentar, gerando mais episódios de picos glicêmicos e uma ação menos eficiente da insulina, com um pico de ação atingido muito rápido e não capacidade de mantê-lo pelo tempo esperado. Apesar dessa diferença, a perda de peso teve os mesmos benefícios na glicose pós-prandial e na cinética da insulina em ambos os grupos.

A dose total de medicamentos utilizados para controle glicêmico diminuiu em aproximadamente 75% em ambos os grupos, mostrando que os benefícios da perda de peso foram expressivos e independentes da estratégia terapêutica utilizada.

A perda de peso é associada a uma melhora na qualidade de vida, diminuição de gordura corporal e taxas de glicemia. Para o paciente diabético, o mais importante foi a perda de peso independente da estratégia utilizada. Nesse contexto, cabe aos médicos e profissionais de saúde orientar os pacientes a procurarem mudanças de hábitos, haja visto que a mudança na composição corporal foi associada a efeitos benéficos.

Para os pacientes que tiverem insucesso no tratamento clínico conservador, a cirurgia é uma opção viável, atingindo resultados tão favoráveis quanto a mudança no estilo de vida.

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Referências

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